Por detrás dos slogans, o retrato é muito mais confuso.
À medida que o acordo comercial UE–Mercosul se aproxima, as grandes cadeias de retalho francesas alinham-se para tranquilizar agricultores indignados e consumidores preocupados. Juram que a carne bovina argentina e o frango brasileiro nunca chegarão às suas prateleiras. No entanto, o direito da UE, as regras contratuais e as realidades das cadeias de abastecimento tornam essa promessa tudo menos simples.
Retalhistas dizem “não” à carne do Mercosul
Em França, os principais grupos de supermercados - Carrefour, E.Leclerc, Système U e Intermarché - assumiram publicamente uma linha dura sobre o acordo assinado com a Argentina, o Brasil, o Paraguai e o Uruguai.
A mensagem é simples: não querem carne do Mercosul.
Os supermercados dizem que haverá “zero produtos do acordo Mercosul” nos seus corredores, como demonstração de apoio aos agricultores franceses.
Thierry Cotillard, líder do grupo Les Mousquetaires (Intermarché), foi direto na rádio francesa. Disse que a cadeia não compra produtos de origem animal provenientes do Mercosul e que não vai começar, chamando à concorrência “desleal” porque as regras de produção não são as mesmas.
Este discurso duro ecoa junto dos agricultores, que temem importações baratas produzidas com normas ambientais e de bem-estar animal menos exigentes. Também funciona bem num debate público em que a soberania alimentar se tornou uma palavra de ordem política.
Ainda assim, a pergunta fica no ar: pode um supermercado excluir de facto todo um bloco comercial sem se meter em sarilhos com Bruxelas ou com os tribunais?
O que o direito da UE realmente permite
Primeiro, um ponto crucial: uma vez ratificado, o acordo UE–Mercosul passaria a fazer parte do direito da União Europeia. Isso torna-o vinculativo não só para os governos, mas também para as empresas privadas que operam no mercado único.
O acordo não obriga os supermercados a vender carne sul-americana. Contudo, regula as condições em que esses produtos podem entrar na UE. Se um bife ou uma remessa de frango cumprir as regras da UE em matéria sanitária, de rastreabilidade e de rotulagem, é legalmente permitido no mercado.
Recusar um produto apenas por vir do Mercosul pode ser entendido como discriminação comercial injustificada à luz das regras da UE.
Uma cadeia pode, evidentemente, escolher o seu sortido. Porém, uma promessa pública e abrangente de nunca vender qualquer produto legalmente conforme proveniente de uma região específica levanta questões jurídicas. Se um fornecedor alegar discriminação e conseguir prová-la, o litígio pode acabar numa autoridade da concorrência ou num tribunal cível.
Existem motivos legais para recusar um produto: alertas de segurança alimentar, fraude, incumprimento das normas da UE ou violações ambientais comprovadas. Uma discordância política em relação a um acordo comercial é muito mais difícil de sustentar.
A liberdade contratual dá margem de manobra aos supermercados
O direito civil nacional, incluindo o Código Civil francês, reconhece uma ampla liberdade contratual. Os supermercados não são serviços públicos; podem escolher com que fornecedores assinam, em que condições e para que gamas de produtos.
É aqui que os retalhistas encontram alavancagem. Podem simplesmente decidir não referenciar certos cortes de bovino ou aves de exportadores do Mercosul por motivos comerciais ou éticos, argumentando que os seus clientes preferem carne francesa ou cadeias de abastecimento mais curtas.
O Carrefour já seguiu esse caminho, suspendendo temporariamente compras de alguma carne bovina sul-americana no final de 2024. A medida foi apresentada como uma decisão de sustentabilidade e desencadeou um pequeno incidente diplomático com o Brasil, que acusou a cadeia de visar injustamente os seus produtores.
Em teoria, nada obriga um retalhista a comprar carne do Mercosul. Na prática, contratos de longo prazo e estratégias de marca limitam o grau de radicalidade dessas escolhas.
Marcas industriais, origens escondidas
A verdadeira dor de cabeça está nos alimentos transformados. Grandes marcas globais - refeições prontas, pizzas congeladas, enlatados, snacks - misturam frequentemente ingredientes de várias regiões.
Os supermercados nem sempre têm visibilidade total sobre a origem de cada componente, desde a soja usada na alimentação animal até aditivos e aromatizantes. Mesmo quando têm, as receitas mudam com frequência e os fornecedores protegem-nas por razões concorrenciais.
Retirar uma marca global de referência das prateleiras porque um ingrediente pode ter origem no Mercosul seria uma aposta comercial arriscada. Os clientes podem não seguir a mensagem patriótica - podem simplesmente mudar para outra cadeia que continue a vender os seus biscoitos ou hambúrgueres preferidos.
- Carne fresca e aves: mais fácil controlar a origem, forte sinal político
- Laticínios e charcutaria: cadeias mais complexas, origem mista da ração
- Alimentos transformados (refeições prontas, snacks): ingredientes de vários continentes
- Alimentação para animais de companhia e rações: frequentemente ligada a mercados globais de matérias-primas
Assim, embora os retalhistas possam boicotar ruidosamente itens óbvios como bifes brasileiros, têm muito menos controlo sobre a pegada “escondida” do Mercosul dentro de produtos transformados.
Onde os agricultores e os consumidores entram na história
Para os sindicatos agrícolas, as promessas dos supermercados são bem-vindas, mas não apagam receios mais amplos sobre o acordo. Entre eles estão a pressão sobre os preços, impactos ambientais na Amazónia e uma corrida para baixo nos padrões.
Os retalhistas insistem que a responsabilidade é partilhada. Apontam para a contratação pública, sobretudo cantinas escolares e hospitais. Se essas cozinhas escolherem, em concursos, a carne importada mais barata, qualquer boicote privado nos supermercados terá apenas um efeito limitado.
Slogans de soberania alimentar chocam com a prática diária quando as crianças podem almoçar frango brasileiro enquanto os pais são aconselhados a “comprar francês” nas lojas.
Os consumidores também estão no centro da contradição. Inquéritos mostram forte apego à comida local, mas o preço continua a ser um fator decisivo. Numa crise do custo de vida, uma família a comparar um frango francês com uma importação mais barata pode não manter princípios patrióticos.
O que pode realmente acontecer nas prateleiras francesas
Está a emergir um cenário realista. Os supermercados podem cumprir a promessa nos produtos mais visíveis, como carne bovina ou frango frescos sul-americanos, aceitando discretamente que alguns bens transformados continuem a depender de matérias-primas importadas.
Podem reforçar a rotulagem para destacar carne e leite de “origem francesa”, usar bandeiras tricolores nas embalagens e fazer promoções com agricultores locais. Ao mesmo tempo, o fluxo invisível de soja, milho e outras commodities agrícolas do Mercosul continuaria através de rações e ingredientes.
| Aspeto | Alavancagem do supermercado | Risco legal |
|---|---|---|
| Importações de carne fresca | Elevada: pode optar por não referenciar produtos | Moderado: precisa de critérios neutros e objetivos |
| Alimentos transformados | Média: negociações com grandes marcas | Mais elevado: mais difícil justificar exclusões abrangentes |
| Contratação pública (cantinas) | Baixa: decisões tomadas por autoridades | Baixo: retalhistas são apenas fornecedores indiretos |
| Rotulagem e comunicação | Elevada: marketing e política de loja | Baixo: desde que as alegações sejam verdadeiras |
Esta realidade híbrida pode ser desconfortável face à simplicidade dos slogans “zero produtos do Mercosul”. Ainda assim, corresponde ao modo como os sistemas alimentares funcionam: os acordos comerciais moldam fluxos, mas as decisões diárias são movidas por contratos, logística e procura dos clientes.
Termos-chave e ângulos práticos para os consumidores
Duas noções técnicas surgem frequentemente neste debate.
Primeiro, a “não discriminação” no direito da UE. Os retalhistas podem definir políticas de compra, mas devem usar critérios objetivos que não visem arbitrariamente um país ou bloco. Enquadrar uma política em torno do bem-estar animal ou da desflorestação é mais seguro do que nomear diretamente Estados do Mercosul.
Segundo, a “preferência pelo local” em concursos públicos. As regras europeias permitem alguns critérios ambientais e sociais, mas restringem cláusulas diretas de “preferência nacional”. As cidades que querem 100% de carne local nas refeições escolares têm de usar critérios mais sofisticados, como cadeias curtas de abastecimento ou normas certificadas, para cumprir o direito da UE.
Para os consumidores, alguns hábitos podem fazer uma diferença real:
- Verificar os rótulos de origem em carne fresca e ovos, onde as regras são mais rígidas.
- Procurar certificações independentes de bem-estar animal ou de ração livre de desflorestação.
- Perguntar ao supermercado local sobre as suas políticas de aprovisionamento, em vez de depender apenas de declarações mediáticas.
- Prestar atenção ao que é servido nas cantinas e pressionar as autoridades locais a esclarecerem as suas escolhas de abastecimento.
Um desfecho possível é um mercado a duas velocidades. As marcas próprias e os balcões de frescos podem tornar-se fortemente “nacionais” na origem, enquanto as grandes marcas multinacionais continuam a depender de fluxos internacionais de commodities. Essa estrutura pode confortar os agricultores franceses em alguns segmentos, mas deixá-los expostos noutros, sobretudo nos alimentos transformados, onde a concorrência por preço é intensa.
O debate sobre o Mercosul nos supermercados, portanto, vai muito além de um simples sim-ou-não à carne bovina brasileira. Levanta questões mais profundas sobre quanto controlo os retalhistas realmente têm sobre cadeias globais de abastecimento, até onde o direito da UE permite preferência pelo local e quão coerentes os cidadãos estão dispostos a ser ao passar dos slogans de protesto para a lista semanal de compras.
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