A capacidade da Rússia para financiar a sua guerra depende cada vez mais de cada barril que consegue vender no estrangeiro - mas essas vendas estão agora a trazer muito menos dinheiro. Uma combinação de sanções, descontos e mudanças cambiais está a abrir buracos no orçamento do Kremlin e a começar a remodelar o cálculo militar e económico do país.
O dinheiro do petróleo já não corre como antes
Desde a invasão em grande escala da Ucrânia em 2022, o petróleo e o gás têm sido a espinha dorsal financeira do orçamento do Estado russo. Financiavam pensões, subsídios regionais e, de forma crítica, a despesa militar. Essa base está agora sob pressão.
Números oficiais do Ministério das Finanças da Rússia mostram que as receitas de petróleo e gás caíram cerca de 24% em 2025, descendo para o nível mais baixo desde 2020. Em tempo de paz, uma queda deste tipo seria dolorosa. Durante uma guerra em grande escala, é perigosa.
As receitas energéticas da Rússia afundaram para um nível que obriga a escolhas difíceis entre armas, bem‑estar social e investimento de longo prazo.
Os preços globais mais baixos explicam parte da história. A outra parte é que o crude russo é negociado com descontos acentuados face aos referenciais internacionais. A principal qualidade de exportação do país, a Urals, tem sido frequentemente vendida mais de 20 dólares por barril abaixo do Brent, o preço de referência global. Em alguns meses, o diferencial terá ultrapassado os 24 dólares por barril.
Além disso, um rublo mais forte significa que cada dólar de receita de exportação se converte em menos rublos dentro do país. Assim, mesmo quando a Rússia consegue escoar muitos barris, acaba na mesma com menor poder de compra internamente.
As sanções mordem mais fundo nas exportações de petróleo russas
Os governos ocidentais passaram os últimos dois anos a apertar o cerco ao setor energético russo, não só através de embargos, mas também por via de restrições financeiras e ao transporte marítimo.
Medidas direcionadas contra os gigantes petrolíferos russos
Os EUA e os seus aliados visaram grandes produtores como a Rosneft e a Lukoil. Também atacaram as partes mais opacas do comércio, incluindo armadores, seguradoras e intermediários acusados de ajudar Moscovo a contornar as restrições através das chamadas “frotas sombra”.
As sanções não apagaram o petróleo russo do mapa, mas tornaram mais difícil vender barris ao preço total e em condições previsíveis.
Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), as exportações russas de crude e produtos refinados desceram para cerca de 6,9 milhões de barris por dia em novembro de 2025. É um dos valores mais baixos desde o início da invasão e próximo de alguns mínimos observados durante a pandemia de Covid‑19.
Volumes mais baixos e preços com desconto criam uma dupla compressão. A Rússia tem de oferecer pechinchas para atrair compradores na Ásia e no Médio Oriente, ao mesmo tempo que depende de uma cadeia logística mais complexa e cara para levar o petróleo até lá sem recorrer a serviços ocidentais.
Os limites da estratégia da “frota sombra”
A Rússia e os seus parceiros tentaram contornar as sanções usando petroleiros mais antigos, transferências navio‑a‑navio ao largo e estruturas de propriedade opacas. Estas táticas mantêm algum fluxo de barris, mas com custos.
- O seguro é mais caro ou, por vezes, indisponível.
- As viagens são mais longas e menos eficientes, imobilizando navios e capital.
- Uma fiscalização mais rigorosa aumenta o risco de apreensões súbitas de cargas ou atrasos.
Cada um destes fatores corrói a receita líquida. O crude é vendido, mas o Kremlin fica com menos dinheiro depois de pagar intermediários e custos de transporte mais elevados.
A despesa de guerra enfrenta uma pressão orçamental crescente
A economia russa depende estruturalmente, há muito, do rendimento dos hidrocarbonetos. Quando esse rendimento cai, a pressão recai diretamente sobre a despesa federal - sobretudo sobre defesa e segurança.
Moscovo não publicou cortes detalhados linha a linha. Ainda assim, a dimensão da queda das receitas sugere uma mudança clara dentro do orçamento: mais rublos desviados para o exército, menos disponíveis para tudo o resto.
Cada barril com desconto que sai de um porto russo aumenta a probabilidade de hospitais, escolas ou infraestruturas ficarem à espera para que os militares não fiquem.
As autoridades tentaram tapar buracos aumentando outros impostos e recorrendo a reservas. A Rússia ainda dispõe de algumas almofadas financeiras, incluindo o Fundo Nacional de Riqueza, embora estas tenham diminuído e não sejam infinitas. Um défice orçamental crescente torna o governo mais dependente de endividamento interno e de bancos controlados pelo Estado, aumentando os riscos financeiros ao longo do tempo.
Efeitos em cadeia na economia em geral
O choque petrolífero não afeta apenas generais e contabilistas. Propaga‑se por fábricas, famílias e governos locais.
Com menos petrodólares a entrar, a Rússia tem menos moeda estrangeira para pagar importações - desde maquinaria industrial a componentes de alta tecnologia. Isso limita a produção interna, sobretudo em setores já atingidos por controlos às exportações de tecnologia ocidental.
Projetos de investimento, públicos e privados, enfrentam atrasos ou redução de escala. Autoridades regionais queixam‑se de transferências mais pequenas a partir de Moscovo, mesmo quando a inflação e as pressões sociais relacionadas com a guerra aumentam. Para muitos russos, isso traduz‑se em impostos mais altos e serviços reduzidos - uma combinação que o Kremlin tentou evitar durante grande parte do governo de Vladimir Putin.
Como o petróleo mais barato muda o cálculo no campo de batalha
Nas linhas da frente na Ucrânia, os militares não veem folhas de cálculo do orçamento. Veem stocks de munições, drones, fornecimentos de combustível e rotações. No entanto, tudo isto depende da capacidade do Estado para pagar.
| Área de despesa | Impacto potencial de menores receitas petrolíferas |
|---|---|
| Munições e mísseis | Pressão para limitar o uso, reposição mais lenta, maior dependência de parceiros como o Irão e a Coreia do Norte. |
| Manutenção de equipamento | Menos peças sobressalentes e menos assistência, sobretudo para sistemas complexos como aeronaves e blindados avançados. |
| Salários e benefícios dos soldados | Risco de bónus atrasados ou incentivos menores para novos recrutas e militares contratados. |
| Aparelho de segurança interna | Escolhas difíceis entre financiar a repressão interna e as operações na linha da frente. |
A Rússia ainda pode canalizar uma grande fatia das receitas restantes para a guerra, e o país mostrou disponibilidade para sacrificar padrões de vida para sustentar a campanha. Ainda assim, a margem de erro é mais estreita do que era há dois anos.
Vencedores, perdedores e mudanças na energia global
O desconto no crude russo cria, no estrangeiro, tanto perdedores como vencedores oportunistas. Grandes compradores como a China e a Índia conseguiram negociar fornecimentos mais baratos, poupando milhares de milhões nas suas faturas de importação.
Para outros países exportadores de petróleo, o cenário é misto. Alguns membros da OPEP veem a concorrência da Urals com desconto como um desafio, enquanto produtores do Golfo que beneficiam de qualidades de maior qualidade e de sanções mais leves enfrentam menos pressão. Os mercados globais de petróleo ajustaram‑se, mas esta reconfiguração tem implicações geopolíticas de longo prazo, reforçando os laços entre Moscovo e consumidores asiáticos.
Termos‑chave que moldam o debate
Vários conceitos económicos continuam a surgir nas discussões sobre o aperto ao petróleo russo. Compreendê‑los ajuda a dar sentido aos números.
- Desconto da Urals: a diferença de preço entre a mistura Urals da Rússia e o crude Brent. Um desconto maior significa menos receita orçamental por barril.
- Teto de preço (price cap): uma medida dos países do G7 e aliados que limita o uso de transporte marítimo e seguros ocidentais para petróleo russo vendido acima de um preço definido.
- Preço de equilíbrio orçamental: o preço do petróleo de que um país produtor precisa para equilibrar o seu orçamento do Estado. Se os preços de mercado ficarem abaixo desse nível, os défices aumentam.
Se o desconto da Urals se mantiver elevado enquanto a despesa russa com a guerra continuar alta, Moscovo terá de cortar programas não militares, endividar‑se mais ou procurar novas fontes de receita dentro do país. Cada opção tem custos políticos e sociais.
O que acontece se o aperto continuar
Vários cenários estão agora em cima da mesa. Se a fiscalização das sanções se intensificar, mais cargas poderão ser atrasadas ou bloqueadas, empurrando a Rússia para aceitar descontos ainda maiores. Uma nova queda dos preços globais do petróleo agravaria o problema. Nesse caso, a Rússia poderá responder com aumentos de impostos mais duros, monetização acelerada de ativos do Estado ou cortes mais profundos em subsídios e despesa civil.
Se, pelo contrário, os preços globais subirem devido a conflito no Médio Oriente ou perturbações de oferta noutros locais, a Rússia poderá respirar um pouco melhor, mesmo com descontos em vigor. No entanto, preços mais elevados também incentivariam os países consumidores a aumentar fontes alternativas e renováveis, limitando a influência de Moscovo a longo prazo.
Por agora, o Kremlin tenta projetar calma. Mas os números mostram uma tendência clara: a guerra que deveria ser financiada pela riqueza energética está, cada vez mais, a corroê‑la. A forma como a Rússia gerir esta contradição moldará tanto as suas opções no campo de batalha como a sua estabilidade interna nos próximos meses.
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