O país andino está prestes a assinar um dos maiores negócios de aviação militar da sua história, virando-se para os Estados Unidos e afastando dois concorrentes europeus que tinham lutado arduamente pelo contrato.
O Peru aproxima-se de um acordo de vários milhares de milhões com Washington
De acordo com informações publicadas em Lima, o Ministério da Defesa do Peru recomendou a compra de 24 caças F‑16 Block 70 ao fabricante norte-americano Lockheed Martin. O pacote está avaliado em cerca de 7 mil milhões de dólares, ou aproximadamente 7 mil milhões de euros segundo as atuais premissas de planeamento.
A decisão ainda aguarda um anúncio formal, esperado após as eleições no Peru, mas figuras políticas-chave terão, ao que tudo indica, dado luz verde ao plano. O Presidente do Conselho de Ministros, Ernesto Álvarez Miranda, juntamente com a Ministra da Economia Denisse Miralles e o Ministro da Defesa César Díaz Peche, terão aprovado a aquisição esta semana.
O Peru prepara-se para investir cerca de 7 mil milhões de euros em 24 F‑16 Block 70, escolhendo o avião norte-americano em detrimento de dois rivais europeus avançados.
O acordo representaria não só uma grande modernização para a envelhecida frota de caças do Peru, mas também um novo sinal de alinhamento com Washington numa região onde o poder aéreo é simultaneamente uma ferramenta militar e um símbolo diplomático.
O Rafale francês e o Gripen sueco perdem uma corrida renhida
A provável escolha do F‑16 Block 70 é um duro golpe para a francesa Dassault Aviation e para a sua variante Rafale F4, que tinha sido promovida de forma agressiva em Lima. A sueca Saab, que oferecia o JAS 39 Gripen E/F, também sai de mãos a abanar, apesar de, em tempos, ter estado na pole position.
Em 2025, a Saab terá vencido um concurso inicial com uma proposta de 24 aeronaves Gripen E/F por cerca de 3,5 mil milhões de euros, aproximadamente metade do custo do atual pacote de F‑16. No entanto, o processo arrastou-se, os contextos políticos mudaram e uma competição renovada colocou Washington, Paris e Estocolmo a disputar o mesmo prémio até à reta final.
O Gripen sueco tinha anteriormente liderado a lista curta do Peru por cerca de 3,5 mil milhões de euros, antes de uma competição reformulada ter alterado o resultado inicial.
Para a França, o revés é particularmente sensível. O Rafale tem acumulado vitórias nos mercados de exportação, com contratos na Índia, Grécia, Croácia e Emirados Árabes Unidos. Perder no Peru evidencia como a influência política dos EUA e garantias de segurança mais abrangentes podem pesar mais do que argumentos puramente técnicos ou financeiros.
Porque é que Lima se inclinou para o F‑16 Block 70
No papel, o Rafale F4, o Gripen E/F e o F‑16 Block 70 situam-se num patamar semelhante de desempenho: caças multifunções avançados, com sensores modernos, armamento de precisão e fortes capacidades ar-ar e ar-solo. Fontes peruanas citadas pela imprensa local defendem que a diferença resultou de fatores estratégicos e políticos, e não apenas da aviônica e dos preços.
O Peru vê várias vantagens ao optar pelo avião norte-americano:
- Laços de defesa mais estreitos com Washington e acesso a programas de apoio militar dos EUA
- Aeronaves consideradas mais avançadas do que os F‑16 operados por Argentina e Chile
- Possível inclusão em treino e exercícios conjuntos com forças aéreas dos EUA e aliadas
- Uma base global de utilizadores maior, facilitando manutenção e modernizações a longo prazo
A liderança em Lima também parece querer garantir aquilo que muitos planeadores sul-americanos veem como uma espécie de “guarda-chuva” informal proporcionado pela associação a material e doutrina norte-americanos. Estar no mesmo tipo de aeronave que numerosas forças aéreas da NATO, e que vários vizinhos regionais, é entendido como um sinal de dissuasão e uma forma de reduzir problemas de interoperabilidade.
O que torna o Block 70 diferente
O F‑16 Block 70, também referido como F‑16V ou “Viper”, é a mais recente e sofisticada iteração de um caça que voou pela primeira vez nos anos 1970, mas que foi modernizado repetidamente. O padrão Block 70 só começou a sair da linha de produção em 2023 e já está ao serviço no Barém e na Eslováquia.
A sua característica mais marcante é o radar:
O F‑16 Block 70 transporta o AN/APG‑83 SABR, um radar AESA (varrimento eletrónico ativo) que aumenta o alcance de deteção e melhora a resistência a interferências.
Um radar AESA (active electronically scanned array) usa milhares de pequenos módulos de transmissão/receção para orientar o feixe eletronicamente, em vez de mover mecanicamente uma grande antena. Isto permite acompanhamento mais rápido de alvos, maior fiabilidade e melhor desempenho contra tentativas de guerra eletrónica.
Principais destaques técnicos do F‑16 Block 70
| Característica | Benefício para o Peru |
|---|---|
| Radar AESA AN/APG‑83 | Maior alcance de deteção, melhor acompanhamento de alvos, melhor desempenho em ambiente com ruído e interferências |
| Cabina moderna e computador de missão | Maior consciência situacional do piloto, integração mais fácil de novas armas e sensores |
| Extensão de vida estrutural | Maior vida útil da célula, reduzindo substituições dispendiosas a meio do ciclo de vida |
| Compatibilidade com armamento avançado dos EUA | Acesso a um vasto inventário de munições guiadas de precisão e mísseis ar-ar |
Embora o Peru não tenha divulgado publicamente que armas pretende adquirir, os utilizadores do F‑16 Block 70 procuram, tipicamente, mísseis para além do alcance visual, bombas de precisão e pods de designação avançados - capacidades que dariam à Força Aérea do Peru uma vantagem muito maior face a frotas regionais mais antigas.
Rivalidade regional: olhar para a Argentina e o Chile
A escolha do Block 70 também é moldada pelo que os vizinhos do Peru estão a fazer. A Argentina garantiu F‑16 em segunda mão provenientes da Dinamarca, com apoio dos EUA, enquanto o Chile depende há muito de F‑16 adquiridos nos anos 2000. Ambos os países operam blocos anteriores, menos avançados do que o novo padrão peruano.
Responsáveis peruanos citados pela imprensa local salientam que Lima colocará em serviço uma “versão superior” de F‑16 comparativamente às existentes em Buenos Aires e Santiago. Em termos militares, isto traduz-se em melhor desempenho do radar, células mais recentes e acesso mais fluido a futuras modernizações desenvolvidas pelos EUA.
O Peru pretende ultrapassar os rivais regionais ao operar uma configuração de F‑16 mais moderna do que as frotas argentina e chilena.
Este tipo de vantagem incremental é relevante na América do Sul, onde um conflito aberto é improvável, mas o poder aéreo continua a desempenhar um papel em disputas fronteiriças, operações anti-contrabando e sinalização política.
O que isto significa para a França e a Suécia
Para a Dassault e a Saab, o Peru junta-se a uma lista crescente de competições apertadas e politicamente carregadas em que o mérito técnico, por si só, não garante a vitória. A França tem promovido o Rafale como uma alternativa independente aos sistemas dos EUA, sublinhando autonomia estratégica e menos condicionantes políticas. A Suécia tem promovido o Gripen como um caça flexível e económico, com propostas atrativas de cooperação industrial.
Ainda assim, a viragem de Lima para Washington sublinha como as campanhas de exportação são influenciadas por relações de defesa e diplomáticas mais amplas. O acesso a percursos de formação nos EUA, redes de peças sobresselentes, instrumentos de financiamento e garantias de segurança pode inclinar a balança mesmo quando aeronaves rivais são comparáveis em desempenho ou preço.
Guia de termos: conceitos-chave por detrás do negócio
Para leitores menos familiarizados com tecnologia de defesa, alguns termos ajudam a compreender o debate em torno da escolha do Peru:
- Caça multifunções: aeronave concebida para executar várias missões, como defesa aérea, ataque ao solo e reconhecimento, em vez de se especializar apenas numa tarefa.
- Radar AESA: radar que utiliza muitos elementos de estado sólido para orientar o feixe eletronicamente. Permite varrimento rápido, melhor fiabilidade e operação mais discreta face a radares mecânicos antigos.
- Números de bloco/variante: aeronaves como o F‑16 são produzidas em “blocos” ou versões sucessivas, cada uma acrescentando novos sensores, software ou alterações estruturais.
Estas distinções importam na prática. Por exemplo, um F‑16 com radar AESA pode detetar alvos a maiores distâncias e é mais difícil de “cegar” com interferências inimigas. Num cenário em que aviões peruanos monitorizam voos ilícitos sobre a Amazónia ou acessos marítimos, esses quilómetros extra de alcance de deteção podem significar que uma interceção é possível - e não apenas teórica.
Cenários possíveis quando os F‑16 chegarem
Assumindo que o contrato avança e as entregas começam mais tarde na década, são prováveis várias mudanças para as forças armadas do Peru. Os pilotos precisarão de treino extensivo, provavelmente em parte nos Estados Unidos, deslocando táticas para procedimentos ao estilo EUA/NATO. As equipas de manutenção terão de se adaptar a uma cadeia de abastecimento mais complexa, combinando apoio estrangeiro e local.
No mapa regional, forças aéreas vizinhas irão discretamente correr simulações de potenciais encontros com F‑16 Block 70 peruanos. O Chile e a Argentina poderão procurar modernizações para reduzir a diferença, ou reforçar outras valências como aeronaves de vigilância, sistemas de defesa antiaérea ou drones. O resultado líquido pode ser uma aceleração gradual e dispendiosa da dinâmica regional de armamento, mesmo sem confronto aberto.
Para o Peru, existem também riscos financeiros e políticos. Uma fatura de 7 mil milhões de euros distribui-se por anos e pode colidir com exigências de despesa social num país que enfrenta desigualdade e turbulência política recorrente. Qualquer atraso, derrapagem de custos ou mudança na política de exportação dos EUA poderá desencadear debate interno sobre se a escolha da variante mais avançada do F‑16 ofereceu, de facto, o melhor equilíbrio entre soberania, capacidade e preço.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário