Por detrás dos bastidores dos conflitos modernos, um punhado de especialistas passa os seus dias a arrancar segredos a pens USB queimadas e smartphones crivados de balas. O cargo soa seco - investigador de suportes digitais -, mas as suas decisões podem influenciar para onde as tropas se deslocam a seguir, de quem é arrombada a porta ao amanhecer e qual o comboio que, de repente, muda de rota.
De sucata a ativo estratégico
Os exércitos modernos quase não deixam nenhum dispositivo intocado. Quando os soldados encontram um portátil numa casa segura ou um telemóvel num veículo destruído, este é tratado como um ativo de alto valor. É aí que entram os investigadores de suportes digitais.
Trabalham no que as Forças Armadas francesas chamam um “laboratório projetável”: uma oficina de alta tecnologia que cabe dentro de um contentor. Imagine estações de análise robustas, malas reforçadas cheias de cabos, computadores cuidadosamente configurados e muito café. Esta “caixa” acompanha as operações quase como um hospital de campanha acompanha uma unidade.
O laboratório pertence ao Centro de Investigação Cibernética Avançada, parte dos serviços de informação militares franceses, e funciona como um polo compacto de exploração de informação derivada do ciberespaço. Um único telemóvel abandonado pode tornar-se uma bússola que aponta para casas seguras, depósitos de armas ou rotas de fuga.
Nos campos de batalha atuais, chips de memória e cartões SIM são tratados com a mesma seriedade com que, outrora, eram tratados os documentos capturados.
O que conta como “prova digital” numa zona de guerra
Para estas equipas, qualquer objeto que armazene bits e bytes é um alvo válido. Raramente tem bom aspeto.
- Smartphones estilhaçados e telemóveis básicos “descartáveis”
- Cartões SIM e cartões de memória danificados
- Pens USB carbonizadas e discos externos
- Portáteis e tablets retirados de casas seguras
- Sistemas a bordo de veículos e drones
Os dispositivos chegam amolgados, encharcados, enegrecidos ou simplesmente destruídos. O que para a maioria parece lixo é visto como uma potencial mina de ouro. Os investigadores comparam o seu trabalho à arqueologia digital: removem camadas de danos físicos e lógicos para chegar a dados que alguém quis esconder, apagar ou encriptar.
Recuperar memória a partir de destroços
A primeira fase é quase fisioterapia para eletrónica. Os técnicos tentam estabilizar o dispositivo, contornar ecrãs partidos, isolar chips sobreviventes e impedir degradação adicional. Por vezes, dessoldam chips de memória de uma placa de circuito arruinada e ligam-nos a leitores especializados.
Segue-se uma fase cuidadosa de clonagem. Em vez de arriscar destruir o original, criam uma cópia bit a bit e trabalham apenas sobre essa réplica. Isso permite repetir extrações, desfazer erros e testar técnicas agressivas de recuperação sem perder a fonte.
Onde a maioria vê um telemóvel morto, os investigadores veem fragmentos de cronologias, relações e movimentos à espera de serem cosidos.
De dados brutos a decisões no terreno
Extrair dados é apenas o começo. Os comandantes não querem gigabytes; querem respostas. Por isso, os investigadores concentram-se em transformar bytes brutos em informação operacional com rapidez suficiente para fazer diferença no terreno.
Os tipos de pistas que procuram
Num dispositivo típico, as equipas procuram:
- Listas de contactos e chamadas recentes que revelam redes de associados
- Históricos de mensagens, incluindo conversas apagadas e notas de voz
- Fotografias e vídeos com georreferenciação que colocam pessoas em locais precisos
- Percursos de GPS e registos de Wi‑Fi que mapeiam padrões de movimento
- Nomes de ficheiros, notas ou mensagens em rascunho que sugerem ações planeadas
Uma única selfie com geolocalização tirada à porta de um armazém pode revelar um esconderijo de armas. Um número de telefone recorrente em vários dispositivos apreendidos pode indicar um coordenador que nunca aparece em canais abertos. Grupos de chat podem expor quem dá ordens e quem apenas segue.
Depois de filtradas e validadas, estas pistas são transmitidas rapidamente a oficiais de informação e a unidades em contacto. Isso pode resultar na alteração de um percurso de patrulha, no agendamento de uma detenção, no desvio de drones de vigilância ou na sinalização de um ponto de passagem até então desconhecido numa fronteira.
Quando os dados parecem mortos
Muitos dispositivos chegam em pior estado do que os seus donos. A memória está chamuscada, os conectores arrancados, os sistemas de ficheiros corrompidos. É aqui que a parte “investigação” se torna verdadeiramente técnica.
Os investigadores de suportes digitais recorrem a um conjunto de ferramentas forenses para:
- Reconstruir partições quebradas e sistemas de ficheiros danificados
- Recuperar dados de setores parcialmente sobrescritos ou fragmentados
- Contornar bloqueios básicos e algumas proteções de software
- Interpretar formatos de armazenamento obscuros ou proprietários
- Extrair tipos específicos de ficheiros a partir de fluxos binários brutos
Não desempenham o papel de hackers glamorosos vistos no cinema. Em vez disso, usam um conhecimento profundo de sistemas operativos, organização de armazenamento e bases de dados. Saber como o Android reserva espaço, como as apps de mensagens mantêm registos ou como um módulo GPS grava trajetos pode ser a vantagem que transforma um “bloco” corrompido em coordenadas legíveis.
O trabalho exige teimosia tanto quanto brilhantismo; muitas descobertas surgem após longas horas a olhar para “hex dumps” que quase ninguém mais quer ver.
O entusiasmo da “linha que muda tudo”
Depois de extraídos os dados, surge outro desafio: o volume. Um único smartphone pode conter dezenas de gigabytes. Um portátil apreendido pode reunir anos de atividade. A maior parte é ruído em termos operacionais.
Analistas e investigadores têm de aprender a separar o trivial do decisivo. Procuram padrões e anomalias, mais do que mensagens sensacionais. Chamadas repetidas antes de cada ataque, locais de encontro recorrentes, frases idênticas usadas em diferentes grupos de chat - estes fios podem formar uma tapeçaria de comportamento.
De vez em quando, há um momento que justifica todo o esforço metódico. Pode ser uma mensagem curta enterrada numa cache temporária, um ficheiro de registo ignorado que lista pontos de acesso Wi‑Fi usados durante uma deslocação clandestina, ou um endereço de email que aparece subitamente em vários dispositivos apreendidos de regiões diferentes.
Esse único dado pode obrigar a reavaliar uma hierarquia militante, expor uma rota de abastecimento ou revelar que duas células supostamente não relacionadas estão, afinal, fortemente ligadas. Para o investigador que o encontrou, a recompensa não é fama; a satisfação vem de ver mapas e briefings mudarem de forma porque um pequeno detalhe digital surgiu no momento certo.
Vida de prevenção, não atrás de uma secretária
Esta especialidade militar tem pouco em comum com um emprego tranquilo de cibersegurança no mundo corporativo. As equipas vivem ao ritmo das operações. Quando se planeia uma rusga, preparam-se. Quando os soldados trazem um portátil apreendido a altas horas da noite, a luz do laboratório muitas vezes também se acende.
Algumas missões exigem que os investigadores estejam perto da linha da frente para que os dados sejam processados quase de imediato. Noutros casos, os dispositivos seguem por canais seguros para bases na retaguarda ou centros nacionais, onde equipas maiores ajudam com cargas de trabalho pesadas e análises de longo prazo.
A rotina é rara. Um dia pode ser passado a ressuscitar um disco rígido retirado de um rio. No dia seguinte, trata-se de peneirar telemóveis baratos e descartáveis usados durante poucas horas e depois deitados fora. A imprevisibilidade mantém a rotatividade baixa; quem gosta de puzzles tende a ficar.
Competências por detrás do uniforme
A função costuma atrair perfis que combinam curiosidade com rigor técnico. Muitos chegam com formação em informática, eletrónica ou cibersegurança. Outros vêm de informações de sinais ou de análise de informações tradicionais e aprendem a vertente de hardware.
| Competências técnicas | Características pessoais |
|---|---|
| Conhecimento de sistemas de ficheiros (FAT, NTFS, ext, APFS) | Paciência e perseverança |
| Compreensão dos interiores de sistemas operativos móveis (Android, iOS) | Atenção a detalhes minúsculos |
| Experiência com recuperação de dados e ferramentas forenses | Capacidade de trabalhar sob pressão de tempo |
| Noções básicas de eletrónica e técnicas de reparação de hardware | Discrição e respeito pela confidencialidade |
A formação abrange procedimentos de cadeia de custódia, para que a prova permaneça admissível e fiável. Os investigadores também aprendem a escrever relatórios claros e concisos que os comandantes, ocupados, consigam realmente usar, bem como a fazer briefings a colegas não técnicos sobre conclusões altamente técnicas.
Porque este trabalho importa para lá do campo de batalha
A investigação de suportes digitais não se limita a zonas de conflito. Os mesmos métodos aplicam-se ao contraterrorismo, ao crime organizado, à pirataria e até a investigações humanitárias em que documentar atrocidades depende de telemóveis recuperados de vítimas e testemunhas.
À medida que as nossas vidas passam para os dispositivos, cada conflito produz montanhas de vestígios digitais. Ser capaz de os recolher, proteger e interpretar é agora uma capacidade central de informação. Reforça tanto operações ofensivas como medidas defensivas, por exemplo ao revelar como grupos hostis comunicam, recrutam e movem dinheiro.
Termos-chave e cenários do mundo real
Vários conceitos surgem frequentemente neste campo e podem soar opacos à primeira vista:
- Informática forense (digital forensics): o processo disciplinado de recolher e analisar dados eletrónicos de forma a preservar a sua integridade e valor probatório.
- Cadeia de custódia: o histórico documentado de quem manuseou cada elemento de prova, do campo de batalha ao tribunal, para prevenir alegações de adulteração.
- Metadados: dados sobre dados, como carimbos temporais, etiquetas GPS ou identificadores de dispositivo, que muitas vezes importam mais do que o conteúdo em si.
Imagine um cenário simples: uma patrulha recolhe um telemóvel barato de um carro abandonado perto de uma fronteira. No interior, os investigadores recuperam apenas meia dúzia de mensagens, mas os metadados GPS das fotografias mostram visitas repetidas a três quintas isoladas. Uma delas fica numa rota de abastecimento que intrigava os serviços de informação há semanas. De repente, a vigilância pode concentrar-se nesse ponto, poupando dias ou semanas a uma operação.
Ou considere um cartão de memória com as bordas derretidas por uma explosão. Após uma recuperação meticulosa, devolve apenas um ficheiro utilizável: uma folha de cálculo que agrupa alcunhas com detalhes parciais de contas bancárias. Cruzado com outras apreensões, desfaz uma rede de financiamento que se estendia por dois países, alterando a forma como a monitorização financeira é conduzida nessa região.
Estes exemplos mostram porque uma função de nicho como a de investigador de suportes digitais cresceu tão rapidamente no seio das forças armadas modernas. As guerras podem continuar a ser travadas com artilharia e infantaria, mas, em pano de fundo, há sempre alguém a fixar um chip de memória corrompido, à procura do detalhe ignorado que transforma dados em decisões.
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