No salão, a azáfama do fim da manhã está ao rubro quando ela entra: blazer impecável, cabelo prateado fino puxado para trás num pequeno rabo-de-cavalo, olhos um pouco cansados. “Quero algo que me levante o rosto”, diz ela, sentando-se. “Da última vez que pintei, toda a gente me disse que eu parecia exausta.” A cabeleireira ajusta os óculos, solta delicadamente o rabo-de-cavalo e deixa o cabelo cair. As madeixas são leves, arejadas, quase transparentes nas pontas. No telemóvel, a mulher desliza por fotografias de balayages caramelo e loiros luminosos, como se procurasse um filtro mágico.
A cabeleireira abana a cabeça, em silêncio.
Há tons que não perdoam depois dos 60, sobretudo quando o cabelo é fino.
Porque é que algumas cores “puxam” o rosto para baixo depois dos 60
O cabelo fino tende a assentar mais raso no couro cabeludo, e isso, por si só, pode fazer com que os traços pareçam mais suaves, menos definidos. Junte-se a cor errada e, de repente, cada pequena sombra do rosto parece mais funda. A primeira grande armadilha em que muitas mulheres caem depois dos 60 é ir escurecendo demasiado. Um castanho profundo uniforme ou um quase preto que aos 40 parecia “chique” aos 60 endurece os traços e escava linhas de expressão que nem sequer estavam lá.
A pele clareia com a idade, a fibra capilar afina, mas a cor mantém-se densa. Esse desequilíbrio envelhece o rosto.
Uma cabeleireira em Paris com quem falei chama-lhe o efeito “cortina da noite”. Conta a história de uma cliente de 67 anos que insistiu em voltar ao seu antigo castanho café expresso. Na carta de cores, parecia rico e elegante. Na vida real, o cabelo fino colava-se ao couro cabeludo, como uma touca escura a emoldurar a testa. A linha do maxilar parecia mais pesada, as olheiras mais marcadas. A reação da filha foi brutal: “Mãe, pareces triste.”
Trocaram para dois tons mais claros e adicionaram madeixas translúcidas à volta do rosto. A mesma mulher, o mesmo corte, mas de repente o olhar “levantou”.
A lógica é esta: quando o cabelo é simultaneamente escuro e fino, deixa o couro cabeludo espreitar, sobretudo na risca. O contraste entre pele mais clara e fios muito escuros exagera as cavidades, especialmente nas têmporas e nas órbitas. Uma cor escura e chapada em cabelo fino funciona como um projetor de sombras no rosto. Além disso, os pigmentos escuros podem parecer “pesados” em fibras macias e delicadas, criando aquele efeito de capacete. É por isso que muitos profissionais dizem: aos 60 e mais, um castanho muito escuro puro é um dos tons que mais envelhece em cabelo fino.
Os outros dois tons que, em segredo, acrescentam anos
A segunda grande armadilha de cor depois dos 60 é o famoso trio: “demasiado loiro, demasiado uniforme, demasiado frio”. Aqueles loiros nórdicos gelados, quase brancos, podem ficar impressionantes no Instagram, mas em cabelo muito fino facilmente apagam a tez. O cabelo perde dimensão, a pele parece mais baça e a impressão geral fica frágil, em vez de fresca. A cabeleireira que entrevistei vê muitas vezes mulheres chegarem com uma base quase platinada e um ar cansado que não conseguem explicar.
O cabelo fino não reflete a luz como o cabelo espesso. Um loiro extremo tende a achatar tudo, como um filtro demasiado “no máximo”.
O terceiro tom arriscado é o ruivo acobreado sólido que, com o tempo, vai ficando “alaranjado”. Muitas mulheres escolhem-no à procura de uma mudança divertida e viva e, durante algumas semanas, resulta. Depois, com as lavagens e a exposição ao sol, o vermelho oxida. No cabelo fino, a fibra torna-se mais porosa, a cor ganha reflexos metálicos/alaranjados e o rosto fica com um tom ligeiramente amarelado. Todos já passámos por isso: aquela cor alegre no salão que em casa se transforma num laranja teimoso e baço.
O resultado: as irregularidades da pele destacam-se e o calor do cabelo deixa de favorecer - passa a dominar.
Do ponto de vista da cabeleireira, estes três tons - castanho ultra-escuro, loiro gelado uniforme e ruivo acobreado “chapado” - têm uma coisa em comum: falta-lhes suavidade e nuance. O cabelo fino precisa de transparência, não de massa. Quando a cor é demasiado compacta, amplifica todos os pequenos sinais de fadiga no rosto. Uma raiz ligeiramente sombreada, um balayage suave ou uma mistura de reflexos quentes e frios quebra esse efeito de bloco. Sem isso, a cor funciona como uma moldura dura à volta de traços que estão naturalmente a evoluir.
O que pedir ao seu cabeleireiro em vez disso depois dos 60
A boa notícia: não tem de abdicar da cor, apenas ajustar a forma como a usa. A cabeleireira que entrevistei tem uma regra simples para cabelo fino depois dos 60: “no máximo, dois tons acima ou abaixo da sua cor natural”. Isso mantém a harmonia com a pele e corrige os brancos de forma suave. Para morenas que têm medo de clarear, sugere um mocha ou um chocolate suave com madeixas ultra-finas e muito discretas junto ao rosto. Para antigas loiras, orienta para bege cremoso, loiro areia ou tons “champanhe” que aquecem a tez sem amarelar.
O objetivo é imitar o que o tempo faria - mas de uma forma mais gentil e favorecedora.
Outro método-chave: brincar com a luz, não só com a cor. Um véu fino de balayage nas camadas superiores, um tom ligeiramente mais profundo na nuca e uma “aura” mais luminosa junto à franja/linha frontal. Isto cria movimento e dá a ilusão de volume. Muitas mulheres com mais de 60 acham que têm de pintar tudo, da raiz às pontas, sempre. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. E está tudo bem.
Um retoque parcial, direcionado para a risca e o contorno do rosto, muitas vezes parece mais fresco e jovem do que uma coloração total opaca.
“Depois dos 60, já não falo em ‘esconder’ brancos”, confidencia a cabeleireira. “Falo em integrá-los, em suavizar contrastes. A cor não deve gritar - deve sussurrar.”
Ela dá às clientes orientações simples, fáceis de recordar entre visitas:
- Prefira tons médios e suaves em vez de extremos (muito escuro ou muito claro).
- Peça micro-madeixas ou balayage em vez de uma cor uniforme em todo o cabelo.
- Evite o platinado muito frio se a sua pele tiver calor ou vermelhidão.
- Escolha tons mocha, bege ou rose-gold em vez de cobre chapado ou laranja.
- Reavive o brilho regularmente com glosses suaves em vez de acumular pigmento.
Estas pequenas alavancas não mudam só o cabelo. Também suavizam a forma como se vê ao espelho.
Deixar a cor do cabelo evoluir consigo
Depois dos 60, a cor do cabelo deixa de ser “manter-se jovem a qualquer custo” e passa a ser manter um rosto com ar desperto, tranquilo, vivo. Muitas mulheres descobrem que, ao deixarem para trás castanhos ultra-escuros, loiros gelados ou ruivos alaranjados, os traços parecem mais descansados. Os olhos destacam-se. A pele parece mais calma. A cabeleireira com quem falei insiste numa coisa: tem o direito de renegociar a sua relação com a cor em cada década da sua vida.
Não há uma decisão final, nem uma cor à qual tenha de se agarrar até ao fim.
Para algumas, isso significa caminhar gradualmente para um “sal e pimenta” sofisticado, com apenas um glaze bege suave para acrescentar brilho. Para outras, significa manter um castanho luminoso, mas levantado dois ou três tons em relação aos 40. O que importa é como se sente quando sai da casa de banho de manhã, com o cabelo ligeiramente despenteado. Reconhece-se, ou vê uma máscara que exige manutenção constante?
O cabelo que envelhece não é um problema para resolver: é uma nova textura e uma nova luz com que brincar.
Experimentar, conversar com honestidade com um cabeleireiro de confiança, aceitar que a cor “vencedora” de ontem pode ser o inimigo mais duro de hoje - tudo isto pode ser estranhamente libertador. Talvez descubra que o tom que realmente lhe assenta agora não é o que esconde mais brancos, mas o que devolve mais suavidade ao seu rosto. E essa pequena mudança - do medo de envelhecer para a curiosidade pela harmonia - muda tudo no espelho e, um pouco, também na vida.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para a leitora/o leitor |
|---|---|---|
| Castanho muito escuro e uniforme envelhece cabelo fino | Cria contraste duro com a pele mais clara e acentua sombras | Ajuda a evitar tons que endurecem os traços e dão um ar cansado ao rosto |
| Loiro gelado chapado e cobre “alaranjado” são arriscados | Apagam a tez ou ficam alaranjados em cabelo poroso e fino | Orienta para loiros e tons quentes mais suaves e favorecedores |
| Tons mais suaves e com nuance rejuvenescem | Balayage, micro-madeixas e mudanças de 2 tons integram os brancos naturalmente | Oferece opções concretas para iluminar o rosto e acrescentar volume visual |
FAQ:
- Que cor devo evitar mais se tiver mais de 60 e cabelo fino? Um castanho muito escuro sólido ou preto tende a envelhecer mais o rosto, pois endurece os traços e realça sinais de fadiga.
- Ainda posso ser loira depois dos 60? Sim, mas escolha loiro bege suave, champanhe ou loiro areia com dimensão, em vez de ultra-platinado ou loiro muito claro chapado em todo o cabelo.
- O ruivo é má ideia em cabelo fino e maduro? Não necessariamente, mas evite tons sólidos acobreados/alaranjados; opte por rose-gold, “strawberry” (ruivo morango) ou castanho-avermelhado claro com madeixas subtis.
- Com que frequência devo pintar o cabelo fino depois dos 60? Normalmente, de 6 em 6 a 8 em 8 semanas é suficiente, focando raízes e as zonas que emolduram o rosto, em vez de repintar sempre todo o comprimento.
- Qual é a técnica mais rejuvenescidora para cabelo fino? Um balayage suave ou micro-madeixas à volta do rosto, combinado com um tom global ligeiramente mais claro, costuma dar o efeito mais “lift” e jovem.
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