Saltar para o conteúdo

A planta que enche o seu jardim de cobras: nunca a plante, pois atrai-as.

Pessoa a plantar mudas num jardim, com luvas, junto de uma cesta de flores e uma pá.

A primeira vez que vi uma cobra num jardim não foi na natureza.

Foi num relvado suburbano, entre um trampolim e uma fila de vasos com plantas, num churrasco de domingo à tarde. As crianças corriam com gelados, alguém queimava salsichas e, de repente, ouviu-se o grito: “Há uma cobra!”

Toda a gente ficou imóvel. Os adultos agarraram cadeiras como se estivéssemos numa briga de saloon de um filme de faroeste. A cobra não atacou nem se enrolou. Limitou-se a deslizar silenciosamente para fora de um tufo espesso de plantas no canto e desapareceu por baixo de uma vedação, como se fosse dona do lugar.

Aquelas plantas? Lindas, viçosas, quase tropicais.
E foi aí que começou o problema.

A planta surpreendentemente inocente que transforma o seu jardim num paraíso para cobras

A planta que tantas vezes faz de vilã neste tipo de história é a baixa, densa, amante de sombra - aquela que gostamos de encostar a vedações e caminhos. Pense em coberturas de solo luxuriantes, relvas ornamentais decorativas e herbáceas perenes arbustivas que formam esconderijos compactos: hera inglesa, líriope (monkey grass), relvas ornamentais densas, até mesmo bordaduras de ervas aromáticas negligenciadas que ficaram “ao abandono”.

Por si só, parecem inofensivas. Até bonitas.

Mas, para uma cobra, essa zona desgrenhada, fresca e ligeiramente húmida é como um hotel de cinco estrelas com pequeno-almoço incluído e sem hora de check-out.

Veja-se a hera, por exemplo. Uma proprietária francesa da região do Loire contou-me que deixou a hera inglesa trepar um velho muro de pedra “porque ficava tão romântico”. Em dois verões, a hera estava espessa, o muro quase tinha desaparecido, e a base do muro transformou-se num túnel escuro e intacto de folhas.

Numa manhã de julho, ela baixou-se para retirar algumas folhas mortas e quase pegou numa cobra-de-água enrolada. Depois noutra. Mais tarde, descobriu que havia uma pequena família a usar as raízes da hera como refúgio fresco durante as horas mais quentes do dia.

A planta em si não “atraía” cobras como um íman. Mas a forma como crescia, a cobertura que oferecia e os roedores e insetos que abrigava, sim.

As cobras não são atraídas por plantas pela sua beleza ou pelas flores. São atraídas por três coisas: abrigo, presas e temperaturas estáveis. Plantas densas que se estendem, rastejam e formam tapetes fornecem as três.

Relvas ornamentais altas que tombam sobre si próprias formam túneis abrigados. Coberturas de solo como vinca, hera ou tomilho rasteiro podem esconder ninhos de ratos e rãs. As cobras deslizam para lá para caçar e ficam porque é seguro contra predadores e contra o sol forte.

O palco é a planta; o verdadeiro espetáculo é tudo o que vive por baixo dela.

Como ter um jardim bonito sem estender a passadeira vermelha às cobras

A estratégia mais segura não é imaginar uma única “planta maldita”, mas observar como se planta. Escolha plantas que se mantenham arejadas, não plantas que construam um tapete espesso e impenetrável. Arbustos “em pernada”, por exemplo, com troncos visíveis e o solo limpo na base, deixam muito menos esconderijos do que bordaduras baixas e emaranhadas.

Deixe algum espaço entre tufos. Uns poucos centímetros de solo ou mulche visível entre plantas podem quebrar a cobertura contínua por onde as cobras adoram circular.

E, se gosta de relvas, opte por variedades que se mantenham direitas, não por aquelas que tombam e colapsam num “almofadão” desgrenhado em agosto.

O erro de muitos jardineiros é pensar: “Quanto mais viçoso, melhor.” Plantamos densamente para bloquear a vista do vizinho, esconder uma vedação velha ou “encher” rapidamente uma zona vazia. Depois viramos costas durante uma estação e tudo se cose numa massa verde sólida.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que finalmente entra naquele canto demasiado crescido e percebe que não lhe pegou durante meses. É normalmente aí que aparecem as surpresas: buracos, dejetos, um leve farfalhar por baixo da folhagem.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
Dizemos que vamos mondar regularmente e desbastar antes de ficar demasiado denso, mas a vida mete-se no caminho.

Um paisagista com quem falei resumiu-o sem rodeios:

“As cobras não leem etiquetas de plantas”, disse ele. “Elas leem sombras, humidade e silêncio. Se uma planta cria um túnel escuro e intocado, mais cedo ou mais tarde algo vai usá-lo.”

Para manter um jardim viçoso sem o “espetáculo” de vida selvagem escondida, muitos profissionais recomendam focar-se em:

  • Plantas com caules visíveis em vez de “almofadas” sólidas de folhagem
  • Poda regular das coberturas de solo para nunca formarem tapetes espessos e intocados
  • Caminhos de gravilha ou mulche leve que interrompam faixas longas de plantação densa
  • Manter a base das sebes aberta e arejada, sem ficar sufocada por infestantes
  • Guardar lenha, tijoleira e vasos longe da base das plantas, e não enfiados na verdura

Viver com a natureza… sem a convidar até à porta de trás

Quando começa a ver o seu jardim do ponto de vista de uma cobra, também percebe como é difícil controlar todos os visitantes. Elas seguem água, abrigo e comida - não planos de jardinagem. Isso não significa que tenha de cimentar tudo ou desistir do sonho de um oásis verde.

Significa aceitar um compromisso: quanto mais selvagens e espessas forem as plantas, mais seres vivos vão encontrar ali uma casa. Alguns vão encantá-lo. Outros vão assustá-lo. E alguns vão apenas passar, sem causar problema.

Muitos jardineiros acabam por encontrar um equilíbrio pessoal. Um espaço mais controlado e aberto perto da casa, onde as crianças brincam, os animais circulam e se anda descalço. E, mais longe, no fundo do terreno, uma zona mais solta e natural, onde a vida selvagem é bem-vinda e as plantas densas podem crescer sem podas constantes.

Assim, se uma cobra quiser um esconderijo fresco sob relvas longas e emaranhadas, escolhe o extremo do jardim - não o degrau à porta da cozinha.
Mantém a sua tranquilidade, e o ecossistema mantém os seus corredores silenciosos.

Alguns decidirão nunca mais plantar coberturas de solo densas. Outros vão mantê-las, mas cortar drasticamente todas as primaveras e outonos, limpar os detritos e verificar o que está por baixo.

O que importa não é temer cada folha, mas compreender que tipo de estrutura vegetal está a criar. A planta que enche o seu jardim de cobras raramente é uma única espécie “amaldiçoada”. É aquela que deixa crescer até se tornar um esconderijo perfeito e intocado, exatamente onde menos quer surpresas.

O resto é uma conversa entre si, o seu jardim… e quem quer que passe silenciosamente por ele quando não está a olhar.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Plantas densas criam abrigo Coberturas de solo, hera e relvas que tombam formam túneis escuros e frescos Ajuda-o a identificar que partes do jardim são mais atraentes para cobras
A estrutura importa mais do que a espécie As cobras seguem abrigo, presas e humidade, não nomes de plantas Permite redesenhar canteiros sem “banir” todas as plantas de que gosta
Um desenho aberto e arejado reduz o risco Solo visível, bases podadas e faixas de plantação interrompidas Torna zonas de brincar e caminhos mais seguros e confortáveis de usar

FAQ:

  • Pergunta 1 Que plantas específicas têm maior probabilidade de atrair cobras?
  • Resposta 1 Plantas como hera inglesa, líriope densa, vinca e relvas ornamentais altas que colapsam em tufos espessos são culpadas comuns. Não atraem cobras pelo cheiro, mas por criarem corredores frescos e escondidos onde presas e humidade são fáceis de encontrar.

  • Pergunta 2 Remover uma planta faz as cobras abandonarem o meu jardim?

  • Resposta 2 Não de imediato. As cobras deslocam-se quando o abrigo ou as fontes de alimento desaparecem ao longo do tempo. Se desbastar plantas densas, limpar detritos e reduzir a atividade de roedores e rãs, o seu jardim vai ficando gradualmente menos apelativo e a maioria das cobras acabará por seguir caminho por si.

  • Pergunta 3 Todas as cobras no jardim são perigosas?

  • Resposta 3 Não. Muitas cobras de jardim são inofensivas e até úteis, pois comem ratos, lesmas e insetos. O medo é compreensível, ainda assim. Se vive numa zona com espécies venenosas, aprenda a reconhecê-las localmente e contacte os serviços de fauna/ambiente em caso de dúvida.

  • Pergunta 4 Posso ter um jardim selvagem e natural com segurança?

  • Resposta 4 Sim, através de zonamento. Mantenha as áreas junto à casa e as zonas de brincadeira mais abertas e arrumadas, e deixe a plantação mais selvagem e densa acontecer mais longe. Adicionar caminhos definidos, gravilha e bordaduras visíveis ajuda a separar o seu espaço de vida dos verdadeiros recantos de vida selvagem.

  • Pergunta 5 Que alteração simples tem maior impacto?

  • Resposta 5 Cortar e desbastar regularmente as plantas densas ao nível do solo. Levantar a copa, remover folhas mortas na base e abrir espaços entre tufos reduz de imediato os esconderijos e torna mais fácil ver qualquer presença de fauna antes de entrar.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário