O parlamento alemão deu luz verde a uma grande compra de drones navais fabricados nos EUA, levantando novas dúvidas sobre a capacidade da Europa para desenvolver a sua própria tecnologia militar de ponta e agir de forma independente em futuras crises.
Berlim escolhe o SeaGuardian americano em vez do EuroDrone europeu
A 17 de dezembro, a Comissão do Orçamento do Bundestag aprovou a aquisição de drones MQ-9B SeaGuardian, do fabricante norte-americano General Atomics, para a marinha alemã. O acordo assinala uma viragem clara face ao programa EuroDrone, um projeto europeu emblemático liderado pela Airbus e apoiado por vários Estados da UE.
A decisão pelo MQ-9B faz mais do que colmatar uma lacuna de capacidades na marinha alemã. Indica que, quando prazos, maturidade e interoperabilidade são decisivos, Berlim continua disposta a comprar norte-americano em vez de esperar que a indústria europeia recupere terreno.
A marinha alemã irá depender de drones MQ-9B SeaGuardian, fabricados nos EUA, para vigilância marítima de longo alcance, em vez do futuro EuroDrone.
Para os defensores da “autonomia estratégica” em Bruxelas e Paris, esta escolha dói. O EuroDrone deveria ser um símbolo da determinação europeia em libertar-se da dependência de plataformas dos EUA, como a família de drones Reaper.
Um orçamento de defesa em modo de guerra
A compra de drones insere-se numa subida muito mais ampla da despesa em defesa. A Alemanha desbloqueou cerca de 50 mil milhões de euros para quase 30 novos projetos de armamento, com o objetivo de transformar a Bundeswehr após a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia.
O orçamento de defesa do próximo ano deverá atingir 87,2 mil milhões de euros. Deste montante, 25,5 mil milhões virão de um fundo especial extrapatrimonial criado após o famoso discurso da “Zeitenwende” do chanceler Olaf Scholz, em 2022, quando Berlim prometeu uma mudança duradoura na postura de defesa.
- Pacote total da atual vaga de armamento: 50 mil milhões de euros
- Orçamento previsto da Bundeswehr no próximo ano: 87,2 mil milhões de euros
- Contributo do fundo especial de defesa: 25,5 mil milhões de euros
- Projetos de armamento aprovados nos últimos 12 meses: 103
- Verba desbloqueada para esses projetos: 83 mil milhões de euros
Desde outubro, os deputados alemães aprovaram a compra de 20 caças Eurofighter EF-2000 na mais recente configuração T5, por cerca de 3,75 mil milhões de euros. Também deram luz verde a “várias centenas” de novos veículos blindados, incluindo os modelos Schakal, Luchs 2 e SpähFz NG, estimados em cerca de 8 mil milhões de euros.
Esta lista de compras mostra um padrão claro: a Alemanha quer rearmar-se rapidamente, com sistemas comprovados - por vezes europeus, por vezes americanos. A decisão do SeaGuardian encaixa perfeitamente nessa lógica.
O que o MQ-9B SeaGuardian realmente oferece
Um caçador marítimo de longo alcance
O MQ-9B SeaGuardian é uma aeronave remotamente pilotada, de grande autonomia, concebida para vigilância marítima e guerra antissubmarina. Pode manter-se no ar por mais de 30 horas, dando aos comandantes olhos e ouvidos persistentes sobre vastas áreas marítimas, como o Mar do Norte e o Báltico.
O drone transporta uma torreta eletro-ótica/infravermelha MX-20, capaz de fornecer imagens de alta resolução de dia e de noite. Um radar de vigilância marítima SeaVue varre o tráfego de superfície e consegue detetar pequenas embarcações em ambientes com elevada “confusão” de sinais, algo vital para seguir navios suspeitos ou monitorizar pontos de estrangulamento.
Para caça a submarinos, o SeaGuardian pode largar boias acústicas que escutam assinaturas submarinas. A aeronave também integra um sistema Sage 750 para detetar e identificar emissões de radar, além de um radar AESA Seaspray 7500E V2 capaz de acompanhar múltiplos alvos em simultâneo.
Com mais de 30 horas de autonomia e um conjunto de sensores concebido para o ambiente marítimo, o MQ-9B está adaptado às necessidades navais da Alemanha hoje.
Integrado com a frota Poseidon
A Alemanha não está a comprar o SeaGuardian de forma isolada. Espera-se que os drones trabalhem em estreita colaboração com a nova frota de aeronaves de patrulha marítima Boeing P-8A Poseidon da marinha - outra aquisição norte-americana de grande visibilidade.
A aviação naval alemã, a Marineflieger, planeia operar inicialmente oito P-8A Poseidon, com uma opção de aumentar até doze. Uma aeronave já foi entregue e está em fase de integração e treino.
| Plataforma | Função | Principais pontos fortes |
|---|---|---|
| MQ-9B SeaGuardian | Vigilância marítima não tripulada / antissubmarina | Grande autonomia, menor custo de operação, presença persistente |
| P-8A Poseidon | Patrulha marítima tripulada / antissubmarina | Grande carga de armamento, análise por tripulação, rápida projeção |
Em conjunto, os drones e os Poseidon formam uma rede de vigilância em camadas. Os drones podem garantir cobertura constante e indicar alvos às aeronaves tripuladas, que depois podem aproximar-se rapidamente, classificar contactos e, se necessário, atacar submarinos ou navios com torpedos e mísseis antinavio.
Mau tempo para o EuroDrone e para o MAWS franco-alemão
A aprovação do SeaGuardian também envia um sinal político: Berlim está a afastar-se de projetos marítimos conjuntos-chave com França. Especialistas de defesa em ambos os países veem a medida como um golpe de morte de facto no programa MAWS (Maritime Airborne Warfare System), que deveria fornecer uma aeronave de patrulha marítima de nova geração construída na Europa.
Responsáveis franceses admitem, em privado, que o aval da Alemanha ao P-8A e ao MQ-9B “enterra as últimas ilusões” de que uma aeronave MAWS partilhada chegue em breve.
O EuroDrone em si não foi cancelado, mas o seu papel parece cada vez mais reduzido. Concebido como uma plataforma de média altitude e grande autonomia para informações, vigilância e reconhecimento, o EuroDrone tem sido criticado em Berlim por não ser adequado a cenários futuros de guerra de “alta intensidade”, especialmente em espaço aéreo contestado contra defesas antiaéreas avançadas.
Os apoiantes argumentam que ainda poderia cumprir missões de menor risco, incluindo patrulha marítima, vigilância de fronteiras e apoio a forças terrestres. Ainda assim, a decisão alemã sugere que, para missões navais críticas, Berlim não quer esperar por um sistema que não estará operacional antes do final da década.
Num volte-face, o Japão demonstrou recentemente interesse no EuroDrone, ponderando-o como possível opção para funções de patrulha marítima. Essa atenção externa sublinha um paradoxo: uma aeronave europeia pode encontrar oportunidades de exportação na Ásia antes de convencer plenamente os seus próprios patrocinadores europeus.
Autonomia estratégica vs urgência operacional
O debate em torno do SeaGuardian vai muito além dos drones. Toca no cerne da dificuldade europeia em construir capacidades de defesa credíveis, permanecendo simultaneamente ancorada na NATO e no “guarda-chuva” de segurança dos EUA.
Por um lado, comprar americano oferece benefícios imediatos: sistemas interoperáveis, desempenho comprovado, prazos mais curtos e fortes laços políticos com Washington. Por outro, cada grande compra de equipamento dos EUA pode fragilizar a indústria europeia e adiar o momento em que a UE consiga atuar sem apoio externo.
Para a Alemanha, o cálculo é particularmente sensível. Berlim enfrenta pressão dos aliados para assumir maior responsabilidade na NATO, sobretudo no Báltico e no Atlântico Norte. Uma arquitetura robusta de vigilância marítima, disponível rapidamente, pesa bastante mais do que esperar anos por uma alternativa europeia.
Termos-chave e o que realmente significam
Vários acrónimos moldam este debate e, muitas vezes, escondem o que está em jogo para quem não é especialista.
- EuroDrone: projeto conjunto de drone liderado pela Airbus, com Alemanha, França, Espanha e Itália. Pretende entregar um UAV de média altitude e grande autonomia, semelhante em conceito ao Reaper dos EUA, mas com controlo europeu sobre dados e software.
- MAWS (Maritime Airborne Warfare System): plano franco-alemão para uma nova aeronave de patrulha marítima, para substituir plataformas envelhecidas como o P-3C Orion alemão e o Atlantique 2 francês. A ideia era ter um design comum, logística comum e uma cadeia de treino partilhada.
- MQ-9B SeaGuardian: variante da família MQ-9 adaptada a operações marítimas. Oferece asas mais longas, funcionalidades de segurança melhoradas e um conjunto de sensores otimizado para vigilância marítima e guerra antissubmarina.
Possíveis cenários futuros para a indústria de defesa europeia
Vários caminhos estão agora em cima da mesa. Um cenário prevê que o EuroDrone seja reduzido a uma plataforma de informações de nicho, usada sobretudo por forças terrestres ou em espaços aéreos menos contestados, enquanto missões de topo continuam a depender de sistemas fabricados nos EUA. Isso manteria viva parte da base industrial, mas deixaria a Europa dependente em tarefas críticas.
Outro cenário defende uma divisão de trabalho mais forte: a Europa aceita comprar algum equipamento dos EUA onde não consegue recuperar rapidamente, mas reforça o investimento noutros domínios - como veículos de combate terrestres, guerra eletrónica ou mísseis - onde já tem bom desempenho. Nesse enquadramento, a decisão do SeaGuardian torna-se apenas uma peça de um portefólio estratégico mais amplo, e não um símbolo de derrota.
Existem também riscos de fragmentação. Se cada Estado europeu comprar a sua própria combinação preferida de sistemas americanos e nacionais, a interoperabilidade pode sofrer e as economias de escala para projetos europeus podem desaparecer. Isso aumentaria custos a longo prazo e complicaria operações conjuntas, mesmo dentro da NATO.
Por agora, a marinha alemã obtém o que queria: um “olho” não tripulado capaz no céu, combinado com uma poderosa aeronave norte-americana de patrulha marítima. O preço poderá ser pago mais tarde, em menor influência para a indústria europeia e no equilíbrio de poder dentro de futuros programas de defesa que ainda estão a ser desenhados.
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