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A chegada do míssil Oreshnik à Bielorrússia causa alarme, mas não altera a situação.

Grupo de militares observa bomba verde num reboque, com mapa da Europa ao fundo e modelos de aeronaves em primeiro plano.

A revelação do míssil russo 9M729 «Oreshnik» em solo bielorrusso desencadeou manchetes, declarações nervosas e nova “investigação” por satélite. No entanto, por detrás das imagens dramáticas e do teatro político, o equilíbrio estratégico entre a Rússia e a Europa parece muito menos transformado do que o espectáculo sugere.

Uma colocação em cena que visa primeiro as mentes

As autoridades bielorrussas encenaram a chegada do Oreshnik como um cenário de filme cuidadosamente dirigido. A televisão estatal divulgou imagens de colunas camufladas, discursos, bandeiras e, depois, quase como por deixa, começou a circular entre analistas imagética de satélite. O local provável, perto da cidade de Krichev, no leste da Bielorrússia, parecia mostrar uma zona de transbordo ferroviário e uma nova placa de betão.

Especialistas notaram rapidamente que muitos dos veículos exibidos eram plataformas de apoio e não lançadores. Esse pormenor levanta dúvidas sobre quantos sistemas completos de mísseis existem de facto na Bielorrússia e em que nível de prontidão são mantidos. Ainda assim, para públicos nos países vizinhos, essas nuances contam menos do que a mensagem simples: mísseis russos estão agora posicionados mais perto do coração da Europa.

A colocação do Oreshnik funciona tanto como arma psicológica quanto física, concebida para moldar percepções nas capitais europeias.

Do ponto de vista de Minsk e de Moscovo, esse é o objectivo central. O movimento sinaliza lealdade entre os dois aliados, sugere opções de retaliação contra a NATO e mantém a Bielorrússia nas manchetes como um Estado de linha da frente, e não como um espectador passivo no confronto da Rússia com o Ocidente.

O que o míssil Oreshnik é, na prática

O 9M729, conhecido pela designação de reporte da NATO SSC‑8, é amplamente considerado por governos ocidentais como um míssil de cruzeiro terrestre que violou o entretanto extinto Tratado das Forças Nucleares de Alcance Intermédio (INF). A Rússia rejeita essa descrição, insistindo que o alcance do míssil se mantém dentro dos limites do antigo tratado.

Os dados técnicos públicos continuam escassos e contestados. Ainda assim, avaliações de fonte aberta permitem um retrato aproximado:

  • Tipo: míssil de cruzeiro lançado a partir do solo
  • Alcance estimado: cerca de 1.500–2.500 km, dependendo da configuração
  • Plataforma de lançamento: lançador móvel sobre estrada, semelhante aos sistemas Iskander
  • Ogiva: convencional ou potencialmente com capacidade nuclear
  • Guiamento: provavelmente uma combinação de navegação inercial, por satélite e por correspondência de terreno

Montado num lançador móvel, o Oreshnik pode mudar de posição em território bielorrusso, complicando qualquer tentativa de ataque preventivo. O seu perfil de míssil de cruzeiro, voando relativamente baixo e seguindo rotas variadas, visa explorar lacunas na cobertura de radar e pressionar defesas aéreas em camadas.

Baseá-lo na Bielorrússia reduz os tempos de aviso?

Para os Estados ao longo do flanco oriental da NATO, a geografia é desconfortavelmente próxima. A Bielorrússia faz fronteira com a Polónia, a Lituânia e a Letónia, e fica a curta distância da Ucrânia. Mover qualquer sistema de mísseis para oeste reduz distâncias de voo até alvos europeus.

A questão é se essa redução transforma realmente o quadro estratégico. A Rússia já dispõe de meios abundantes para atingir a Europa a partir do seu próprio território: aeronaves, mísseis de cruzeiro lançados do mar, armas baseadas em submarinos e outros sistemas terrestres.

A Bielorrússia acrescenta mais um ângulo de aproximação, mas não uma capacidade de ataque fundamentalmente nova que a Rússia já não possuísse.

Por exemplo, grande parte da Alemanha, da Polónia e da região báltica já se encontrava ao alcance de mísseis baseados no exclave russo de Kaliningrado ou em distritos militares ocidentais. O Oreshnik na Bielorrússia desloca o mapa, mas não coloca subitamente novos países sob ameaça que antes estivessem fora do alcance russo.

Impacto na defesa aérea e antimíssil europeia

Onde a colocação pesa é no planeamento e na carga de trabalho das defesas europeias. Sistemas como baterias Patriot na Polónia ou a malha crescente de sítios de radar da NATO têm agora de considerar pontos adicionais de lançamento.

A defesa aérea e antimíssil europeia não é uma única “cúpula de ferro”. É um mosaico de activos nacionais e da NATO, com lacunas, redundâncias e constrangimentos políticos. Mísseis de cruzeiro como o Oreshnik são concebidos para explorar essas fraquezas: a baixa altitude e as rotas flexíveis desafiam os radares e exigem respostas rápidas e coordenadas.

Ao posicionar um novo sistema na Bielorrússia, a Rússia e a Bielorrússia obrigam as forças da NATO a dedicar mais sensores, patrulhas e planos de contingência à região. Isso pode pressionar stocks já limitados de interceptores e unidades de defesa aérea de alta gama, necessários noutros teatros, incluindo o apoio à Ucrânia e a protecção de infra-estruturas críticas.

Sinal para a NATO, mensagem para a sociedade bielorrussa

A colocação transporta várias mensagens, em camadas, dirigidas a públicos diferentes.

Público Sinal pretendido
Governos da NATO A Rússia e a Bielorrússia podem ameaçar alvos europeus chave a partir de múltiplas direcções.
Público e elites bielorrussas O regime é um actor central na segurança regional, apoiado pelo poder russo.
Ucrânia Pressão adicional a norte, prendendo defesas e capacidade de planeamento.
Público interno russo Moscovo está a expandir a sua pegada militar e a enfrentar a pressão da NATO.

O Presidente Alexander Lukashenko, isolado de grande parte do Ocidente e fortemente dependente de Moscovo desde 2020, ganha margem de manobra e prestígio ao acolher sistemas russos de alto nível. A sua presença sublinha a relevância do regime e aprofunda a integração militar com a Rússia, tornando qualquer ruptura política muito mais complicada.

Porque é que analistas dizem que a equação estratégica «não muda nada»

Muitos analistas de defesa argumentam que, apesar do ruído, a chegada do Oreshnik não altera substancialmente o perfil de risco fundamental da Europa. As razões são simples.

A Rússia já tinha poder de fogo convencional e nuclear mais do que suficiente para atingir capitais europeias muito antes de um único Oreshnik entrar na Bielorrússia.

Factores frequentemente citados incluem:

  • Mísseis de cruzeiro e balísticos russos já existentes, com alcances semelhantes ou superiores
  • Aviação de longo alcance capaz de lançar mísseis de cruzeiro ar‑solo a partir do espaço aéreo russo
  • Plataformas navais no Báltico, Mar Negro e Mar de Barents com mísseis de cruzeiro Kalibr
  • Forças nucleares regidas por cálculos estratégicos, e não regionais

Nesse contexto, a nova colocação parece menos um “vira-jogo” e mais uma peça adicional num tabuleiro de xadrez já sobrelotado. É um lembrete de vulnerabilidade, não uma revolução na capacidade militar.

Percepção, risco e a escada de escalada

Onde o Oreshnik mexe no ponteiro é na percepção e na gestão de risco. Cada nova colocação avançada aumenta a probabilidade de erro de cálculo. Um eco de radar, um exercício mal interpretado ou um lançamento de teste a partir da Bielorrússia poderia, numa crise tensa, desencadear pensamento de pior caso em centros de comando da NATO.

Políticos sob pressão de públicos ansiosos podem sentir-se obrigados a responder de forma visível: enviar mais tropas, realizar exercícios maiores ou destacar unidades adicionais de defesa antimíssil. Passo a passo, isso pode criar uma espiral de escalada que nenhum dos lados planeou inicialmente.

Cenários: de presença rotineira a gatilho de crise

Vários cenários plausíveis ocupam os planeadores quando observam o Oreshnik na Bielorrússia.

  • Postura rotineira: os mísseis permanecem sobretudo em guarnição, usados para treino e mensagem. O risco mantém-se gerível, mas constante.
  • Alerta elevado: durante uma crise sobre a Ucrânia ou exercícios da NATO, a Rússia e a Bielorrússia colocam os sistemas em maior prontidão, dispersam lançadores e aumentam movimentos, elevando a probabilidade de má interpretação.
  • Lançamento demonstrativo: um disparo de teste a partir de território bielorrusso para uma zona remota de ensaio ou impacto no mar envia um sinal claro e testa o acompanhamento ocidental.
  • Uso real em combate: numa escalada grave do conflito, os sistemas são usados contra alvos ucranianos ou, num caso extremo, da NATO. Este passo ultrapassaria um limiar importante e convidaria retaliação.

Cada degrau dessa escada tem os seus próprios custos políticos e militares. Por agora, a colocação situa-se na zona cinzenta entre postura rotineira e alerta elevado, usada sobretudo como alavanca e propaganda.

Termos‑chave: Tratado INF, mísseis «de dupla capacidade» e tempo de aviso

Várias expressões técnicas surgem repetidamente nos debates em torno do Oreshnik.

O Tratado INF, assinado pelos EUA e pela União Soviética em 1987, proibiu mísseis terrestres com alcances entre 500 e 5.500 km. Os EUA retiraram-se do tratado em 2019, citando violações russas ligadas especificamente ao 9M729. Esse colapso removeu constrangimentos formais sobre este tipo de mísseis, abrindo caminho a colocações como a da Bielorrússia.

O Oreshnik é frequentemente descrito como de dupla capacidade - capaz de transportar uma ogiva convencional ou nuclear. Mesmo que, na prática, sejam colocadas apenas ogivas convencionais, a simples possibilidade de uso nuclear complica a tomada de decisão da NATO. Qualquer míssil recebido tem de ser tratado como potencialmente nuclear até prova em contrário, comprimindo tempos de reacção e podendo empurrar líderes para respostas mais duras.

Tempo de aviso refere-se ao intervalo entre a detecção de um lançamento e a chegada do míssil ao alvo. Basear na Bielorrússia reduz essa janela para alguns pontos na Europa, mas a questão central não são os minutos ganhos ou perdidos. É o efeito cumulativo de múltiplos eixos de lançamento, que torna a detecção e o seguimento um puzzle mais complexo.

Como isto molda as opções de defesa europeias

A presença do Oreshnik alimenta debates mais amplos na Europa sobre reequipamento, defesa aérea e antimíssil partilhada e o papel da dissuasão nuclear. Várias tendências deverão reforçar-se:

  • Investimento em redes integradas de defesa aérea e antimíssil que liguem radares e interceptores nacionais
  • Aquisição de sistemas adicionais como Patriot, SAMP/T e defesas de curto alcance
  • Maior ênfase na dispersão de infra-estruturas críticas e centros de comando
  • Uso expandido de meios de aviso prévio baseados no espaço e em plataformas aéreas

Os públicos em Estados da linha da frente como a Polónia e a Lituânia já tratam a Bielorrússia como uma extensão do espaço militar russo. O Oreshnik reforça essa visão e pode acelerar projectos como a «European Sky Shield Initiative», liderada pela Alemanha, que procura coordenar compras de defesa aérea entre múltiplos aliados.

Para a própria Bielorrússia, acolher tais sistemas aprofunda a dependência de longo prazo de garantias de segurança e de hardware russos. Qualquer tentativa futura de uma nova liderança para se afastar de Moscovo enfrentaria a realidade de que activos estratégicos chave - e provavelmente partes das suas cadeias de comando - permanecem sob controlo russo ou são concebidos por entidades russas.

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