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Após quatro anos de estudo, cientistas concluem que trabalhar a partir de casa torna as pessoas mais felizes, mas os gestores não ficam satisfeitos.

Homem de cabelo encaracolado a trabalhar num portátil, sentado a uma secretária com caneca, papéis coloridos e plantas ao fun

Num cinzento manhã de terça-feira em 2024, o comboio da hora de ponta numa grande cidade europeia entrou na estação quase meio vazio. Os poucos passageiros olhavam pela janela, café na mão, enquanto uma mulher de hoodie atendia uma chamada no Zoom no telemóvel, câmara desligada, cabelo ainda húmido do duche. Ao mesmo tempo, num subúrbio sossegado, um jovem pai fechava o portátil entre dois e-mails para poder levar a filha à escola. Voltaria a ligar-se mais tarde, a partir da mesa da cozinha, ao lado de uma tigela de cereais a meio.

Durante quatro anos, economistas e psicólogos acompanharam pessoas exatamente como estas. Mediram stress, sono, produtividade, até o número de sorrisos num dia.

O veredito é agora público.

E alguns gestores não estão a dormir bem à noite.

Quatro anos de dados: o efeito “felicidade no home office”

Depois dos anos de emergência da pandemia, um grupo de investigadores de várias universidades continuou discretamente. Acompanharam mais de 60.000 trabalhadores de diferentes setores, países e níveis salariais. Já sem modo de crise, sem confinamentos - apenas vida real com portáteis e Wi‑Fi. O relatório mais recente cai como uma pequena bomba: pessoas que trabalham a partir de casa pelo menos dois dias por semana reportam uma satisfação com a vida significativamente maior, menos stress e melhor sono.

A curva é clara. À medida que o número de dias em casa sobe para dois ou três, os indicadores de bem‑estar aumentam e depois estabilizam. Cinco dias em casa não duplicam a felicidade, mas a diferença face à vida de escritório a tempo inteiro é difícil de ignorar.

Um dos estudos de caso do relatório segue “Mark”, um engenheiro de nível intermédio, no final dos trinta. Em 2020, foi empurrado para o trabalho remoto de um dia para o outro. Quatro anos depois, quando os escritórios reabriram, a empresa pressionou para um regresso total. Os investigadores acompanharam as hormonas do stress, o registo diário de humor e o uso do tempo. Durante os anos remotos, recuperou quase 90 minutos por dia por não ter de se deslocar. Usou esse tempo para cozinhar, tocar guitarra e, finalmente, deitar-se antes da meia-noite.

Quando Mark teve de voltar ao escritório cinco dias por semana, a satisfação reportada caiu quase 20%. A produtividade? Quase não mudou.

Os cientistas não dizem que o trabalho remoto seja uma cura mágica. Apontam para uma equação simples: menos tempo perdido em transportes, menos microagressões em open space, mais controlo sobre pequenas escolhas do dia a dia. Os seres humanos sentem-se melhor quando podem escolher quando se concentrar, quando passear o cão, quando vestir calças “a sério”.

Os gestores, perante escritórios meio vazios e rendas caras, lêem os mesmos gráficos de outra forma. Para eles, cada trabalhador mais feliz em casa parece mais um laço de equipa fragilizado, mais uma câmara “off” numa reunião, mais uma razão para se perguntarem se a cultura sobrevive no Slack.

Porque é que os chefes estão a arrastar os pés (e o que os trabalhadores podem fazer)

A equipa de investigação passou meses a entrevistar gestores de linha que estavam, com delicadeza - ou nem por isso -, a chamar as pessoas de volta. Um tema surgiu vezes sem conta: controlo. Não um controlo maléfico de vilão de banda desenhada, mas o hábito silencioso de gerir pela visão. “Se eu puder andar pelo piso e vê-los”, disse um gestor na área financeira, “sinto que sei o que se está a passar.” Quando o trabalho passa para a cloud, esse velho reflexo fica subitamente exposto.

Por isso, os gestores agarram-se ao que conhecem: calendários cheios, secretárias visíveis, o pequeno conforto de um escritório com ar de ocupado.

Para os colaboradores que querem manter a liberdade que os faz mais felizes, os cientistas observaram algo que funcionou surpreendentemente bem. As pessoas que negociaram resultados concretos e mensuráveis, em vez de discutirem dias dentro ou fora, tiveram mais probabilidades de conseguir horários híbridos estáveis. Não discutiram filosofia nem “o futuro do trabalho”. Mostraram, com calma, que os projetos eram entregues a tempo, que os bugs diminuíam, que os clientes se mantinham.

Todos já estivemos naquele momento em que um gestor diz: “Eu sinto que a equipa está mais alinhada quando estamos todos aqui.” Sentimentos são difíceis de combater. Resultados numa folha de cálculo não.

O estudo também alerta para uma armadilha: fingir que o trabalho remoto é perfeito para todos, sempre. Algumas pessoas sentiram-se isoladas. Alguns recém-contratados mais juniores atrapalharam-se sem mentoria informal. Sejamos honestos: ninguém faz isto na perfeição todos os dias. Os trabalhadores mais felizes no conjunto de dados não eram necessariamente os que nunca punham os pés no escritório. Eram os que tinham uma rotina ajustada à sua vida real.

Menos deslocações numa fase exigente com filhos pequenos. Mais tempo presencial durante uma tentativa de promoção. Esse tipo de ritmo flexível.

“O trabalho remoto não é sobre fugir ao escritório”, disse um dos investigadores principais. “É sobre encurtar a distância entre quem as pessoas são e como trabalham. É aí que vive a felicidade.”

  • Peça um período de teste em vez de um direito permanente: 2 ou 3 meses em regime híbrido, com objetivos claros, é mais fácil de aceitar para os gestores.
  • Registe discretamente as suas métricas: tempos de resposta, tarefas concluídas, bugs corrigidos. Isto dá-lhe factos secos quando as emoções sobem.
  • Use os dias no escritório de forma estratégica: marque 1:1, brainstormings e cafés informais nesses dias, em vez de se esconder atrás de auscultadores.
  • Proteja alguns pequenos rituais em casa: um almoço a sério longe de ecrãs, uma caminhada de 10 minutos, um bloco de manhã cedo sem reuniões.
  • Fale de energia, não de preguiça: diga “sou mais eficaz de manhã em casa” em vez de “odeio ir ao escritório”.

A revolução silenciosa que está a acontecer nas salas de estar

Por trás das manchetes sobre as “guerras do regresso ao escritório”, está a desenrolar-se algo mais suave em milhões de casas. As pessoas estão a redesenhar os seus dias à volta do que, de facto, as mantém sãs. Um alongamento rápido entre chamadas. Uma máquina de roupa numa tarde stressante. Quinze minutos extra na cama em vez de esperar à chuva pelo autocarro. São momentos pequenos, nada extraordinários. Ainda assim, quando os investigadores os somam ao longo de quatro anos, veem uma mudança real na saúde mental.

O escritório não desapareceu. Apenas perdeu o monopólio do que “trabalho a sério” significa.

É isso que inquieta silenciosamente muitos líderes. Cresceram num mundo em que passar o crachá, chegar cedo, sair tarde eram prova de compromisso. Agora, um colega pode entregar um relatório brilhante a partir de uma cozinha, de fato de treino, e ninguém o viu “esforçar-se”. Se o esforço já não é visível, como é que o recompensa?

Algumas empresas respondem com dias obrigatórios, apps de registo de entrada e saída, pressão subtil. Outras abraçam a experiência e redesenham funções à volta da flexibilidade.

O veredito dos cientistas ao fim de quatro anos é direto: em média, as pessoas são mais felizes quando têm pelo menos algum controlo sobre onde trabalham. Adoecem menos vezes. Dizem sentir-se mais presentes com quem amam. Sentem menos que o trabalho lhes engole a identidade inteira. Ainda assim, as médias não gerem equipas; as pessoas é que gerem. Algures entre o escritório vazio e a grelha interminável do Zoom, um novo contrato social está a tentar nascer. A pergunta não é apenas “Quem deve decidir?”, mas “Que tipo de vida queremos que os nossos empregos deixem espaço para viver?”

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
O híbrido aumenta a felicidade 2–3 dias em casa trazem o maior salto no bem‑estar sem prejudicar o desempenho Ajuda-o a defender um horário realista e sustentável
Os gestores temem perder controlo O desconforto vem do esforço invisível e de hábitos mais fracos de “gerir pelo olhar” Permite enquadrar a conversa em clareza, resultados e confiança
Dados vencem opiniões Registar os seus próprios resultados em casa dá-lhe vantagem nas negociações Transforma “sensações” vagas sobre o remoto em evidência concreta

FAQ:

  • Pergunta 1 Trabalhar a partir de casa torna mesmo toda a gente mais feliz, ou só certos tipos de pessoas?
  • Pergunta 2 E se o meu gestor disser que a produtividade cai quando as pessoas estão remotas?
  • Pergunta 3 Como posso pedir mais dias remotos sem parecer que estou a exigir?
  • Pergunta 4 O remoto a tempo inteiro é melhor do que um horário híbrido?
  • Pergunta 5 E se eu me sentir sozinho ou desligado quando trabalho demasiado a partir de casa?

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