O pequeno veículo elétrico não rugia - sussurrava. Ainda assim, responsáveis militares rodearam-no com a atenção normalmente reservada a caças de próxima geração. A Hyundai Rotem, da Coreia do Sul, levou algo que muitos exércitos europeus ainda discutem apenas no papel: um robô terrestre autónomo, armado e pronto para o campo de batalha, capaz de se mover, disparar e evacuar baixas sem qualquer humano a bordo.
Do protótipo ao campo de batalha: a Coreia do Sul carrega no acelerador
O HR‑Sherpa da Hyundai Rotem está em desenvolvimento há anos, mas a versão apresentada na feira de defesa MSPO 2025, em Kielce, na Polónia, assinala uma mudança clara. Isto já não é um simples demonstrador tecnológico.
O veículo é um UGV (veículo terrestre não tripulado) elétrico 6×6, construído em torno de um chassis modular. Cada roda tem o seu próprio motor, dando ao robô elevado binário, grande capacidade de manobra e melhor tração em lama, escombros e neve. Os pneus sem ar eliminam o ponto fraco dos furos, uma causa frequente de avarias nos veículos militares tradicionais.
O HR‑Sherpa foi concebido para conduzir, disparar, reabastecer e retirar um soldado ferido da zona de perigo sem colocar outra vida em risco.
A agência sul-coreana de aquisição de defesa fez avançar o projeto através de vários ciclos de conceção desde cerca de 2018. Ensaios em vários tipos de terreno moldaram o desenho final de produção: estrutura mais robusta, suspensão todo‑o‑terreno melhorada, software de autonomia aperfeiçoado e, crucialmente, uma montagem de armamento normalizada.
Enquanto a França debate a ética, Seul coloca no terreno um robô pronto para combate
A França passou os últimos anos a financiar ensaios de sistemas terrestres não tripulados com intervenientes como a Arquus, a Nexter e o programa Scorpion. Estes testes centram-se na logística, reconhecimento e coordenação tripulado‑não tripulado, mas quase sempre com plataformas desarmadas ou ligeiramente equipadas.
Paris enfrenta também fortes limitações políticas e éticas quanto ao armamento de robôs, sobretudo em ambiente urbano. Documentos doutrinários sublinham supervisão humana apertada, implementação gradual e papéis de combate limitados. Por agora, os robôs franceses são complementos experimentais, ainda não integrados nas estruturas das unidades.
A Coreia do Sul seguiu um caminho diferente. O HR‑Sherpa foi concebido de raiz como um ativo de combate multi‑funções e já está a ser produzido em série. A Hyundai Rotem fala abertamente de testes operacionais e planos de exportação, e não apenas de experiências em laboratório.
Enquanto os projetos franceses continuam presos a ensaios e documentos conceptuais, o HR‑Sherpa coreano é comercializado como um sistema pronto a usar, armado, compatível com a NATO e preparado para missões reais.
Esta velocidade coloca uma questão incómoda aos planificadores europeus: podem permitir-se uma abordagem lenta e cautelosa se rivais e parceiros avançam a alta velocidade com autonomia armada?
Um 6×6 elétrico e silencioso, feito para sobreviver em zonas contestadas
O desenho técnico do HR‑Sherpa está fortemente alinhado com as lições atuais do campo de batalha na Ucrânia, Iraque e Síria, onde a artilharia, os drones e as emboscadas penalizam qualquer coluna ruidosa e exposta.
- Tração elétrica: baixa assinatura acústica e térmica, útil para movimentos furtivos e longas posições de “vigilância” silenciosa.
- Chassis reforçado: capaz de transportar uma carga modular: munições, sensores, macas ou uma estação de armamento remota.
- Pneus sem ar: resistentes a estilhaços, pregos e picos frequentemente usados em engenhos explosivos improvisados.
- Controlo híbrido: pode ser teleoperado ou receber tarefas autónomas como seguimento de rota e patrulhas.
A modularidade da plataforma é central. A mesma base pode apoiar missões logísticas num dia e evacuação de baixas ou reconhecimento no dia seguinte. Essa flexibilidade facilita a justificação do investimento numa nova categoria de veículo por parte de exércitos com orçamentos apertados.
Uma estação de armamento remota instalada de fábrica
A versão mostrada na Polónia transportava uma estação de armamento remota (RCWS) controlada à distância, armada com uma metralhadora de 7,62 mm e um sistema eletro‑óptico de pontaria. A partir de uma distância segura, um operador pode apontar e disparar usando câmaras diurnas, imagem térmica e telêmetro laser.
A montagem pode vigiar o perímetro de uma base, cobrir o avanço da infantaria ou escoltar colunas. Como a estação é estabilizada, o robô consegue disparar com alguma precisão mesmo enquanto se desloca lentamente em terreno irregular.
O HR‑Sherpa foi construído para continuar a operar mesmo em ambientes com interferências, usando sensores e software de navegação a bordo em vez de depender apenas do GPS.
A Hyundai Rotem afirma que o conjunto de navegação combina unidades de medição inercial, odometria, mapeamento local e algoritmos baseados em visão, permitindo ao veículo orientar-se quando os sinais por satélite são fracos ou deliberadamente perturbados.
Autonomia tática para “integração tripulado‑não tripulado”
O HR‑Sherpa destina-se a trabalhar ao lado dos soldados, e não a substituí-los. Em modo “follow‑me”, pode seguir uma esquadra como uma mula robótica, transportando munições ou equipamento pesado. Em modos mais avançados, pode avançar para testar itinerários arriscados ou áreas contaminadas.
Isto encaixa no debate da NATO sobre “integração tripulado‑não tripulado”, em que veículos tripulados e drones terrestres ou aéreos formam um único grupo tático. Os robôs ocupam as posições mais perigosas, enquanto os humanos mantêm a tomada de decisão e a autoridade sobre as regras de empenhamento.
A Europa torna-se um mercado-alvo estratégico
A Hyundai Rotem já tem presença no continente com os carros de combate principais K2 encomendados pela Polónia. Isso dá à empresa parcerias industriais e canais políticos que podem ser reutilizados para promover o HR‑Sherpa.
A Polónia, com uma longa fronteira com a Bielorrússia e a observar a invasão russa da Ucrânia, está a investir fortemente em artilharia, defesa aérea e forças blindadas. Um veículo autónomo pronto a comprar, capaz de transportar cargas, vigiar fronteiras e prestar apoio de fogo remoto, encaixa nessa lista de aquisições.
Para Estados europeus que procuram esticar efetivos limitados, um robô capaz de assegurar patrulhas de rotina, logística e evacuação de baixas tem um apelo evidente.
Outros membros da NATO na Europa de Leste, confrontados com frotas envelhecidas de era soviética e dificuldades de recrutamento, são também candidatos prováveis a aquisições de UGV nos próximos anos.
Um chassis, muitos papéis: o conjunto de missões do HR‑Sherpa
O veículo coreano é comercializado como uma plataforma plenamente multi‑funções. Uma única unidade pode ser reconfigurada através da troca de kits de missão, em vez de se comprarem sistemas especializados separados.
| Tipo de missão | Configuração do HR‑Sherpa |
|---|---|
| Apoio logístico | Plataforma plana ou módulo contentor para munições, alimentos ou peças sobresselentes |
| Evacuação de baixas | Suporte traseiro para maca com cintas de fixação e armazenamento médico básico |
| Deteção CBRN/NBQ | Sensores especializados e ferramentas de amostragem para ameaças químicas, biológicas ou radiológicas |
| Reconhecimento autónomo | Mastro com câmaras, sensores infravermelhos e radares para vigilância a 360 graus |
| Apoio de fogo teleoperado | RCWS com metralhadora e óticas, controlada a partir de um posto de comando |
| Segurança estática de perímetro | Vigilância silenciosa de longa duração com deteção de movimento e alarmes |
Esta versatilidade reflete conflitos recentes, em que forças alternam combate urbano, patrulhas em zonas rurais e segurança de fronteiras com as mesmas unidades e equipamento limitado.
Transferir o risco dos soldados para as máquinas
As guerras modernas mostraram que os momentos mais letais muitas vezes não são assaltos clássicos, mas tarefas rotineiras: reabastecer posições avançadas, verificar uma estrada suspeita, recolher um camarada ferido sob fogo. São precisamente essas tarefas onde robôs terrestres podem fazer a diferença.
Com uma plataforma como o HR‑Sherpa, um comandante pode enviar uma máquina para um campo minado suspeito, uma rua sob ameaça de atiradores furtivos ou uma área contaminada por agentes tóxicos. Se o robô for atingido, a perda é financeira e não humana. A carga psicológica sobre as tropas pode também aliviar: saber que um robô pode ir buscar-te se fores ferido altera a forma como alguns soldados avaliam o risco.
A verdadeira mudança não é sobre “robôs assassinos” a assumir o combate, mas sobre descarregar as tarefas mais arriscadas, mais aborrecidas e mais sujas dos corpos humanos para as máquinas.
Ao mesmo tempo, a presença de um robô armado levanta questões táticas e éticas. Quem é legalmente responsável se o sistema identificar mal um alvo? Quanta latitude deve ter um modo autónomo quando as comunicações falham? A maioria dos desenhos atuais, incluindo o HR‑Sherpa, continua a manter um humano “no” ou “sobre” o ciclo de decisão para os disparos, mas a linha entre assistência e autonomia está a deslocar-se.
Noções-chave por detrás de robôs terrestres armados
Duas noções técnicas sustentam a proposta de valor do HR‑Sherpa e muitas vezes são confundidas no debate público.
Autonomia vs. automatização. A automatização significa que o robô segue instruções pré‑definidas ou repete tarefas, como conduzir uma rota fixa de patrulha. Autonomia refere-se à capacidade de percecionar o ambiente, adaptar trajetos e tomar decisões limitadas dentro de regras definidas. O HR‑Sherpa usa ambas: pode seguir automaticamente um veículo rastreado, e também desviar-se de um obstáculo sem esperar por intervenção humana.
Teleoperação. Isto aproxima-se mais de usar um carro telecomandado muito avançado. Um operador, por vezes a quilómetros de distância, conduz e aponta as armas diretamente através de uma interface de controlo. Ligações de comunicação seguras, baixa latência e encriptação resiliente são vitais - e podem ser pontos fracos sob ataque eletrónico.
Num conflito real, os exércitos provavelmente misturarão modos. Para tarefas rotineiras ou em áreas seguras, a teleoperação dá conforto e controlo aos comandantes. Sob interferência intensa ou em combates rápidos, será necessária mais autonomia apenas para manter os robôs funcionais.
Cenários possíveis: como estes robôs poderão ser realmente usados
Imagine uma unidade da NATO encarregue de assegurar uma pequena cidade perto da linha da frente. Em vez de enviar um veículo tripulado por cada rua exposta, os soldados poderiam despachar dois HR‑Sherpa. Um transporta sensores e um altifalante, transmitindo avisos aos civis e devolvendo imagens. O segundo fica mais atrás, armado, pronto a fornecer fogo de supressão se começar uma emboscada.
Noutro cenário, uma coluna sob ameaça de artilharia usa UGV para transportar granadas e combustível entre posições de tiro dispersas. Os robôs trabalham sobretudo à noite, circulando silenciosamente entre linhas de árvores e edifícios em ruínas. Os condutores humanos ficam mais recuados, avançando apenas quando se estabelece uma segurança temporária.
Estes não são conceitos distantes de ficção científica; são os tipos de casos de uso que os responsáveis por aquisições estão a modelar hoje, enquanto observam a rapidez com que países como a Coreia do Sul passam da teoria para sistemas efetivamente colocados no terreno.
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