O velho Renault Clio arrancou no segundo em que o semáforo passou a verde. Marcel, 82 anos, baralhou-se com a manete e avançou aos solavancos, no meio de buzinas. Sorriu para a mulher: “Hoje estou só um bocadinho enferrujado.”
Dois carros mais atrás, um estafeta filmou e comentou: “Isto é perigoso.”
Na mesma estrada, duas gerações e a mesma pergunta: até quando devemos continuar com as chaves na mão?
Os condutores seniores são mesmo mais perigosos na estrada?
Nas redes sociais, parece que “todo o acidente tem um idoso ao volante”. Mas a realidade é mais complexa.
Em muitos países europeus, os condutores mais jovens (sobretudo até aos 24/25) continuam a estar sobrerrepresentados nos acidentes graves: velocidade, álcool, distrações e pouca experiência pesam muito. Já muitos seniores fazem menos quilómetros, evitam conduzir à noite e com mau tempo e repetem percursos familiares - o que, por si só, reduz a exposição ao risco.
O lado de que se fala menos: quando um sénior tem um acidente, os efeitos costumam ser mais severos. A fragilidade física aumenta a probabilidade de lesões graves mesmo a velocidades moderadas. E os padrões de risco mudam com a idade, por exemplo:
- mais dificuldade em cruzamentos complexos (muitos estímulos e decisões rápidas);
- pior visão noturna e maior sensibilidade ao encandeamento (faróis, chuva, reflexos);
- tempos de reação mais lentos, sobretudo com fadiga, dor ou medicação.
Há ainda um ponto prático: “sénior” não é um perfil único. Dois condutores com 80 anos podem ter capacidades muito diferentes (visão, mobilidade, atenção, doenças crónicas, hábitos de condução).
Em países como Espanha ou Países Baixos existem controlos médicos a partir de idades mais avançadas (muitas vezes perto dos 70 anos). Muitos condutores passam sem dificuldade e continuam a conduzir em segurança durante anos.
E o Japão experimentou outra abordagem: incentivar a entrega voluntária da carta com benefícios (por exemplo, descontos em transportes). Em vez de “proibir”, torna-se mais simples parar quando já não faz sentido conduzir.
No fundo, a idade é um sinal de alerta, mas é um indicador grosseiro. Um debate mais útil tende a sair de “em que idade cortamos?” e a ir para “como avaliamos a aptidão real, de forma regular e justa?”.
Entre liberdade, segurança e dignidade: onde traçamos a linha?
Retirar a carta não é apenas um ato administrativo. Para muita gente, significa perder autonomia: ir ao médico, fazer compras, visitar a família. Em muitas zonas rurais (também em Portugal), o carro não é um luxo - é infraestrutura.
Uma regra cega baseada na idade pode ter efeitos perversos: algumas pessoas escondem sintomas (visão a piorar, desmaios, confusão) por medo de “ficarem sem as chaves”. Isso pode atrasar diagnósticos e aumentar o risco.
Pense em dois casos com a mesma idade:
- alguém com artrite ligeira, mas boa visão e boa cognição, que conduz pouco e com prudência;
- alguém com sinais iniciais de défice cognitivo, que se perde e já acumula pequenos toques repetidos.
Tratê-los da mesma forma raramente é “justo” ou “seguro”.
Por isso, muitos especialistas defendem avaliações funcionais regulares, em vez de um corte automático. O que costuma fazer diferença na vida real:
- visão (não só “ler letras”, mas campo visual e tolerância ao encandeamento);
- revisão de medicação (benzodiazepinas/hipnóticos, alguns analgésicos e certos anti-histamínicos podem afetar atenção e reflexos);
- mobilidade (pescoço/ombros para ângulos mortos; força e coordenação para travar/embraiagem);
- quando há sinais: rastreio cognitivo e/ou avaliação prática em estrada.
Regra de bom senso (para famílias e para o próprio): vários “pequenos sinais” em conjunto valem mais do que um episódio isolado - por exemplo, novos riscos no carro, confusão em trajetos conhecidos, sustos em cruzamentos, ou comentários repetidos de passageiros a pedir para “abrandar” ou “ter atenção”.
O ponto central não é culpar uma idade. É gerir risco real - como já fazemos noutras situações: alguém com hipoglicemias, em recuperação de um AVC, ou um condutor que insiste no telemóvel. Simplificar demasiado pode ser confortável, mas raramente resolve.
O que pode realmente mudar para os automobilistas seniores nos próximos anos?
Em vez de retirar a carta “de um dia para o outro”, o caminho seguido em vários países tem sido reforçar revalidações e controlos a partir de certa idade - com mais frequência e maior foco na capacidade funcional.
Em Portugal, já existe revalidação faseada: a carta não é “para sempre” e as renovações tornam-se mais frequentes com a idade, sobretudo após os 70. Em regra, exige-se atestado médico e, nalgumas categorias profissionais (pesados/transporte), pode haver avaliação psicológica. Na prática, isto funciona como um filtro periódico - mas nem sempre capta bem o comportamento real ao volante (por exemplo, decisões em cruzamentos ou gestão de distrações).
O que pode ganhar força nos próximos anos (em Portugal ou noutros países europeus) é uma combinação mais pragmática:
- controlos simples e repetidos (visão, medicação, sinais cognitivos, mobilidade);
- intervenção “a pedido” quando surgem alertas (família, médico, seguradora, autoridades), com avaliação em estrada por profissional;
- recomendações de condução adaptada, em vez do tudo-ou-nada.
A armadilha é transformar isto num “dia de julgamento” humilhante. Se a pessoa se sentir atacada, pode evitar consultas ou desvalorizar sintomas. Melhor é tratar a mobilidade como um contínuo: reduzir noite, chuva intensa, horas de ponta e trajetos muito exigentes antes de chegar ao ponto de parar por completo.
Há também um lado pouco referido: manter um carro (seguro, inspeção, manutenção, combustível) pode sair mais caro do que combinar alternativas - sobretudo quando já se conduz pouco. Para alguns, trocar parte das viagens por táxi/TVDE/transporte a pedido pode manter autonomia com menos risco.
Alguns especialistas defendem mesmo um “plano de mobilidade” para a fase tardia da vida: conversar cedo, experimentar alternativas e preparar a transição. Ajuda mais do que esperar por um susto.
“Deixar de conduzir não devia ser um castigo. Deve ser uma transição acompanhada, com alternativas reais e respeito pela dignidade.”
Para tornar isso concreto, há alavancas frequentemente referidas:
- restrições graduais (por exemplo, sem noite; evitar autoestradas; raio limitado);
- descontos em táxis/TVDE e transportes locais para quem entrega a carta;
- reavaliações obrigatórias, mas com foco em apoio (e não em “punição”);
- cursos de atualização para adaptar regras e tecnologias (rotundas, sistemas ADAS, etc.);
- conversas em família iniciadas cedo, antes de um quase-acidente.
Um futuro em que conduzir aos 80 não é um tema tabu
A pergunta vai manter-se: deve haver retirada automática da carta a partir de uma idade? Entre slogans e discussões familiares, ganha espaço um caminho menos “binário”: a idade como sinal de atenção, não como sentença.
O debate de fundo é maior: como organizamos cidades, vilas e aldeias para que perder a carta não seja “perder a vida”? Quando uma comunidade obriga ao carro para tudo, qualquer mudança vira conflito. Quando existem alternativas fiáveis (transportes locais, transporte a pedido, redes de boleias seguras, serviços essenciais próximos), a transição é menos dolorosa - e mais segura.
Também os carros estão a mudar. Travagem automática de emergência, alertas de saída de faixa, monitorização de ângulo morto e sensores de estacionamento podem reduzir erros comuns - mas não substituem um condutor apto. Exigem habituação e podem falhar se estiverem mal calibrados (por exemplo, após algumas reparações) ou se forem usados como “piloto automático”.
No fim, a questão é íntima e coletiva: quando aceitamos ajuda e limites proporcionais para proteger todos? Uns conduzirão até ao último dia legal; outros preferirão trocar as chaves por rotinas de mobilidade previsíveis. O que já custa mais defender é fingir que o tema não existe.
A forma como ajustarmos regras e alternativas nos próximos anos dirá muito sobre o tipo de sociedade em que queremos envelhecer.
- A idade não é o único fator de risco: jovens e condutores com problemas de saúde/medicação podem representar riscos iguais ou maiores.
- Avaliações regulares (visão, mobilidade, medicação e, quando necessário, cognição) tendem a ser mais justas do que um corte por idade.
- Um “plano de mobilidade” protege independência e segurança: reduzir gradualmente e combinar com alternativas evita decisões em crise.
FAQ:
Vai mesmo haver uma retirada automática da carta a partir de certa idade?
Não é o modelo mais comum. O que se tem visto com mais frequência é o reforço de revalidações e avaliações periódicas com a idade, em vez de um corte rígido.A partir de que idade começam, em geral, os exames médicos para condutores?
Depende do país e da categoria da carta. Em Portugal, há revalidações a partir dos 50 e intervalos mais curtos a partir dos 70, normalmente com exigência de atestado médico.Um médico pode desencadear diretamente uma suspensão da carta?
Em muitos sistemas, o médico pode sinalizar falta de aptidão ao não emitir parecer/atestado favorável e ao orientar para avaliação adequada. A decisão final e o procedimento exato dependem da legislação e do processo aplicável.O que podem as famílias fazer se acharem que um familiar idoso já não conduz em segurança?
Falar cedo e com foco em segurança (não em “idade”), sugerir uma avaliação com profissional, envolver o médico de família e propor limites graduais (noite, autoestrada, chuva, horas de ponta).As novas tecnologias dos carros são realmente úteis para condutores mais velhos?
Podem ajudar (travagem automática, sensores, alertas), mas não compensam défices graves de visão/cognição. E exigem adaptação, uso correto e manutenção/calibração quando aplicável.
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