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Só mais tarde é que percebi porque é que o papel higiénico não deve ser deitado na sanita.

Pessoa desentupindo sanita com uma cobra de esgoto e bicarbonato de sódio, ao lado de um copo de água.

O dia em que a sanita começou a “responder”

Comecei a levar o assunto a sério quando vi no chat do prédio a expressão: “entupimentos recorrentes”. Eu partia do princípio de que a canalização era “moderna”, mas na realidade estava apenas a aguentar-se. Em prédios antigos, casas com fossa séptica, ou quando a água já escoa devagar, a distância entre “não é nada” e “a sanita a devolver água” pode ser só mais uma descarga.

Cresci a ouvir que o papel higiénico “foi feito para ir para a sanita”. Muitas vezes, é verdade. O problema é que essa ideia assume uma instalação impecável: tubagens com inclinação suficiente, diâmetro correto, juntas sem folgas e manutenção em dia.

Os sinais quase sempre começam discretos: um gluglu depois de descarregar, o lavatório a demorar mais a escoar, um cheiro a subir do ralo do duche. Até ao dia em que puxei o autoclismo e a água subiu antes de descer, a centímetros de transbordar.

Quando o canalizador chegou, fez duas perguntas: “O prédio é antigo?” e “Deitam papel na sanita… e que tipo?” Eu respondi “papel normal”. Ele disse: “Vamos ver onde é que esse ‘normal’ está a ficar preso.”

Porque é que o papel higiénico nem sempre desaparece (e o que acontece no caminho)

A sanita não é um triturador. É um sifão ligado a tubagens que dependem de um fluxo contínuo. Se houver pouca inclinação (muitas instalações trabalham no limite), ramais estreitos, curvas apertadas, juntas gastas, “barrigas” no tubo (água a parar), calcário (comum em várias zonas de Portugal), gordura/sabão, raízes, ou uma fossa mal mantida, o papel pode não se desfazer “a tempo”.

O papel higiénico desfaz-se mais depressa do que papel de cozinha - mas não faz milagres. No geral, depende de:

  • Água suficiente: muitas sanitas atuais funcionam com 3/6 L. Se a descarga é curta, se o mecanismo está desafinado, ou se a cisterna não enche bem, empurra menos (e o papel fica para trás).
  • Velocidade e turbulência: com pouca inclinação (regra prática: 1–2 cm por metro já faz diferença), o papel “fica estacionado”, incha e agarra.
  • Parede interna do tubo: calcário e depósitos funcionam como lixa/velcro - nota-se muito em tubagem antiga e em zonas de água dura.

O entupimento raramente é “azar de um dia”. Quase sempre é acumulação: um pouco de papel a mais + descarga fraca + um ponto onde a água não corre bem… até que a folga desaparece.

E há o falso amigo: toalhitas. Mesmo as “descartáveis” tendem a manter fibras e resistência. Misturadas com cabelo e gordura, formam “nós” difíceis (e caros) de remover. Regra simples: toalhitas, nunca.

O que fazer em casa: hábitos simples que evitam entupimentos

A solução não é viver com medo do autoclismo. É adaptar o hábito ao que a sua canalização aguenta - sobretudo em prédios antigos, casas com fossa séptica, ou onde “os entupimentos aparecem do nada”.

Rotina prática:

  • Menos carga por descarga: se usou muito papel, faça duas descargas (uma a meio e outra no fim). Em sanitas com pouca força, nota-se.
  • Evite papel muito espesso/ultra-macio se já há sinais de drenagem lenta. Mais camadas e relevo = mais volume e mais “corpo” na água.
  • Use bidé/duche (se tiver) para reduzir a quantidade de papel, especialmente com fossa séptica.
  • Nunca deite na sanita: toalhitas, cotonetes, algodão, fio dentário, pensos/tampões, preservativos, areia de gato, restos de comida, óleos e gorduras (mesmo “só um bocadinho” vai acumulando e cola-se aos tubos).
  • Se tem fossa séptica: evite desinfetantes em excesso e “pós milagrosos” que prometem dissolver tudo. Em muitas casas, a limpeza faz-se a cada 2–5 anos, mas o intervalo depende do tamanho da fossa e do número de pessoas (e do que vai lá parar).
  • Tenha um caixote com tampa: em algumas casas, o papel também vai para aí - não por capricho, mas para proteger a tubagem e evitar chamadas urgentes.

Dois erros comuns: “compensar” com ainda mais papel, e insistir em descargas curtas seguidas (pouca água a empurrar, mais papel a acumular). Se hesita meio segundo antes de deitar algo na sanita, provavelmente não deve.

Sinais de alerta: quando parar e chamar ajuda

Os entupimentos avisam. O erro típico é pensar “ainda está a escoar, por isso passa”. Às vezes, esse “ainda” é a última margem.

Preste atenção a:

  • Gluglus/borbulhas na sanita ou ralos após descarregar.
  • Água a subir antes de descer (mesmo que depois desça).
  • Cheiros persistentes vindos do ralo apesar da limpeza normal.
  • Vários pontos lentos ao mesmo tempo (sanita + lavatório + duche), sugerindo problema na coluna/ramal comum.
  • Retorno noutro ralo quando usa a sanita.

Se isto acontecer, pare de tentar “empurrar” o problema:

  • Evite produtos cáusticos “à sorte”: podem atacar tubagens antigas e raramente resolvem bloqueios compactados mais abaixo. Nunca misture produtos (por exemplo, lixívia com ácidos/amónia) - pode libertar gases perigosos.
  • Um desentupidor de borracha bem vedado pode ajudar em bloqueios superficiais (dica: água suficiente para cobrir a borracha e movimentos firmes, sem “picadinhas”). Se não melhora depressa, insistir tende a compactar.
  • Se a água estiver quase a transbordar, feche a torneira de corte da sanita (normalmente junto ao chão/parede) e evite usar água em casa.
  • Se é recorrente, peça diagnóstico: inspeção com câmara e/ou limpeza com equipamento de pressão costuma resolver melhor do que “tentativas” semana após semana. Em condomínio, muitas vezes é da coluna e não do seu WC.

“A sanita perdoa durante semanas… e depois cobra tudo num dia.”

Pontos-chave (rápido):

  • Nem todas as canalizações aguentam “papel sempre”: idade do prédio, inclinação, depósitos e ramais estreitos mudam o jogo.
  • Menos carga por descarga: duas descargas podem ser melhor do que uma muito pesada.
  • Toalhitas são outro problema: não se desfazem como o papel e fazem “nós”.

FAQ:

  • O papel higiénico é sempre proibido na sanita? Não. Em muitas casas com canalização em bom estado, é o normal. O risco aumenta em prédios antigos, fossas sépticas, descargas fracas e tubagens com histórico de depósitos/entupimentos.

  • Como sei se a minha casa é “sensível” a isto? Se há gluglus, drenagem lenta, cheiros nos ralos, retorno noutros pontos, ou histórico no condomínio, trate como sensível até prova em contrário. Um canalizador pode dizer se o problema é no seu ramal ou na coluna - e se há desnível, depósitos ou estreitamentos.

  • E se eu já deitei papel a vida toda e nunca aconteceu nada? Ótimo. Mas as tubagens envelhecem, ganham calcário e acumulam gordura. O que antes funcionava com folga pode deixar de funcionar quando a margem de escoamento diminui (ou quando muda para uma sanita de descarga mais económica).

  • Posso usar produtos químicos para “desfazer” papel preso? Com cautela. Em tubagens antigas podem causar danos e, em bloqueios mais abaixo, muitas vezes não resultam. Se é recorrente, vale mais identificar a causa (depósitos, desnível, obstrução na coluna) do que “tratar sintomas”.

  • O que é que nunca, mesmo nunca, deve ir à sanita? Toalhitas (mesmo as “descartáveis”), cotonetes, fio dentário, pensos/tampões, óleo/gordura, restos de comida e areia de gato - são feitos para resistir, e é por isso que entopem.

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