Chegar a casa com os sapatos encharcados e encostá‑los ao aquecedor parece a solução mais rápida. Muitas vezes, porém, sai caro: danifica materiais, intensifica odores e ainda aumenta o risco de acidente (sobretudo com aquecedores portáteis).
Sapatos não são toalhas: têm colas, espumas, forros e, muitas vezes, pele tratada ou membranas. Tudo isto reage mal a calor direto e desigual.
O que o aquecedor faz aos sapatos (e por que é tão rápido a estragar)
O problema não é o “calor” por si só; é o calor intenso concentrado num ponto. O exterior seca primeiro, o interior mantém‑se húmido, e essa diferença “puxa” o sapato, provocando deformações.
Danos típicos (podem surgir em poucas horas):
- pele a ficar rija e a perder flexibilidade; camurça com manchas e marcas
- biqueira e laterais a encolher/enrugar e a perder a forma
- costuras a ceder e solas a descolar, sobretudo em sapatilhas com sola colada
E há o clássico cheiro: calor + humidade retida aceleram bactérias e fungos. Secar “só por fora” não resolve; por vezes piora, porque a humidade fica “presa” dentro do sapato.
O dano invisível: colas, espumas e membranas não gostam de choques térmicos
Por dentro, o calçado é feito por camadas. Mesmo modelos simples costumam incluir:
- colas que amolecem com calor e voltam a endurecer de forma irregular
- espumas que colapsam (muito comum no calcanhar) e perdem amortecimento
- sintéticos que enrugam, ficam brilhantes e podem fissurar
- membranas impermeáveis/respiráveis que podem delaminar e perder desempenho
Regra prática: se a zona onde está a secar fica “quente demais para manter a mão”, então também é quente demais para colas e espumas. O estrago nem sempre aparece de imediato: começa com microfendas e pequenas descolagens nas áreas de flexão.
Armadilha comum: o exterior parece seco, mas o interior pode continuar húmido durante muitas horas - e é isso que alimenta o cheiro e degrada o forro.
Segurança: não é só o sapato que está em risco
Sapatos molhados junto a aquecedores (radiadores elétricos, aquecedores a óleo, termoventiladores, salamandras/recuperadores) trazem riscos práticos:
- podem tapar entradas/saídas de ar e provocar sobreaquecimento
- podem escorregar e encostar numa zona muito quente
- podem pingar para cabos, tomadas ou extensões (especialmente no chão)
- alguns materiais libertam cheiros fortes ao aquecer e “queimam” poeiras/cola
Regra simples: mantenha a área do aquecedor desimpedida e cumpra as distâncias de segurança do fabricante. Se não souber, jogue pelo seguro (por exemplo, ≥ 1 m) e nunca cubra grelhas/saídas de ar.
A regra simples que evita quase tudo
Sapatos secam melhor com ar a circular do que com calor direto. O objetivo é remover humidade de forma gradual, sem deformar nem “cozinhar” as colas.
Um bom método de secagem faz três coisas:
- remove água (absorção)
- melhora a circulação de ar (evaporação)
- mantém temperatura moderada e uniforme (sem choques)
Encostar ao aquecedor costuma falhar nisto: aquece em excesso, no sítio errado, e raramente acelera a secagem dentro do sapato.
O que fazer em vez disso (funciona mesmo, sem truques)
1) Primeiro, tirar o que prende a humidade
- retire as palmilhas (se possível)
- desapertar os atacadores/abrir bem o sapato
Se estiver a pingar, passe um pano por fora para retirar o excesso. Menos água livre = menos tempo total e menos manchas.
Se houver chuva com sujidade/sal (comum em passeios e estradas), limpe antes de secar - sobretudo em pele/camurça - porque as marcas “fixam” quando seca.
2) Papel (mas com método)
Encha com papel absorvente branco (ou jornal, com cuidado por causa da tinta). Use volume para manter a forma, sem compactar como um “tampão” (isso abafa e atrasa).
O que acelera mesmo é trocar:
- primeira troca ao fim de 30–60 min
- depois a cada 2–3 h enquanto o papel continuar húmido
Quando o papel já sair quase seco, pode espaçar. Se tiver formas/“shoe trees”, ajudam a manter a forma (especialmente em pele).
3) Ar em movimento, calor baixo
Deixe os sapatos num local arejado, à temperatura ambiente. Para acelerar sem estragar:
- ventoinha em baixa velocidade apontada para a abertura do sapato
- espaço entre os dois sapatos para o ar circular
- longe de sol direto e de fontes de calor
Em dias húmidos (muito comum no inverno em Portugal), um desumidificador na divisão é das soluções mais eficazes: desumidificador + papel no interior. Não é instantâneo, mas seca por dentro de forma mais uniforme e com menos cheiro.
4) Para sapatilhas e desporto: cuidado extra com a sola
Sapatilhas com sola colada sofrem mais com calor direto. Seque com calma e, no fim, deixe arejar mais algumas horas mesmo depois de “parecerem secas”: o interior e as colas demoram a estabilizar.
| Método | Vantagem | Risco principal |
|---|---|---|
| Encostar ao aquecedor | Parece rápido | Descolar, deformar, cheiro, risco de incidente |
| Papel + trocas regulares | Barato e eficaz | Sem trocas, fica lento e abafa |
| Ventoinha/desumidificador | Secagem uniforme | Demora algumas horas e exige planeamento |
“Mas eu só ponho ali um bocadinho…”: os enganos mais comuns
“Eu não encosto, deixo só perto” muitas vezes dá no mesmo: “perto” pode ser quente demais, sobretudo com o aquecedor no máximo. Além disso, o lado virado ao calor seca primeiro e puxa a forma nessa direção.
Outro erro é usar calor para “tirar o cheiro”. O cheiro não é falta de calor; é humidade + microrganismos. Se secar por fora e ficar húmido por dentro, o cheiro regressa (muitas vezes mais forte) na próxima utilização.
Quando é que vale a pena parar e ter mais cuidado
Há calçado que perdoa pouco:
- pele natural e camurça
- botas com membrana impermeável
- sapatos com sola colada (muitas sapatilhas)
- calçado caro ou com forma estruturada
Nesses casos, mais vale 12–24 horas de secagem bem feita do que “meia tarde” que deixa o sapato deformado, rijo ou a descolar. E, depois de secar, a pele pode agradecer um creme/condicionador (camadas finas) para recuperar alguma flexibilidade.
FAQ:
- Posso usar um secador de cabelo em vez do aquecedor? Pode, mas só com ar morno/frio e sempre em movimento, à distância. Ar quente direto tende a causar os mesmos problemas (rigidez, deformação, colas a ceder).
- Quanto tempo demoram a secar uns sapatos por dentro? Depende do material e da quantidade de água, mas conte com 12–24 horas com ventilação normal. Com papel (trocado) e boa circulação de ar, muitas vezes fica em 6–12 horas.
- É seguro colocar sapatos molhados em cima de um radiador desligado? Em geral é mais seguro do que ligado, mas pode deformar se houver calor residual e não melhora a circulação interna. Melhor: papel por dentro + ar a circular.
- O jornal estraga ou mancha o interior? Pode manchar materiais claros por transferência de tinta, sobretudo com muita humidade. Para evitar, use papel absorvente branco/papel de cozinha.
- Como evito o mau cheiro depois de secar? Garanta que secou mesmo por dentro, areje mais algumas horas e, se necessário, use bicarbonato (numa meia fina/saco) durante a noite; retire antes de calçar.
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