Um terceiro “coração” encaixa no lugar
O foco recaiu no módulo n.º 5 da câmara de vácuo do ITER, o maior reator de fusão atualmente em construção (perto de Aix-en-Provence). Baixado com precisão milimétrica para a fossa central do edifício do tokamak, ficou alinhado ao lado dos módulos 6 e 7, instalados no início de 2025.
Com estes três setores, já está montado cerca de um terço do vaso de vácuo em forma de donut que, um dia, terá de confinar um plasma mais quente do que o núcleo do Sol. No jargão da equipa, cada peça é um “segmento do coração”: quando os nove segmentos estiverem montados e selados, o tokamak poderá receber os primeiros plasmas de hidrogénio (um arranque “mais simples” antes da fase com deutério–trítio).
O ITER já instalou três dos nove setores massivos do vaso que formarão o núcleo da sua máquina de fusão, assinalando um grande passo para longe da teoria e mais perto da operação experimental.
O módulo 5 foi instalado a 25 de novembro de 2025, depois de meses de inspeções, limpeza e ensaios de alinhamento. O efeito vê-se a olho nu: o que era um poço de betão começa, finalmente, a parecer a estrutura central de uma máquina de fusão.
Como se monta um donut metálico de 30 metros
Quando estiver completo, o tokamak do ITER terá cerca de 30 m de altura e 30 m de diâmetro. No centro está o vaso de vácuo: um enorme donut metálico onde o plasma circula sem tocar nas paredes.
A montagem avança de baixo para cima, encaixando setores pré-fabricados como “fatias” de um anel. Cada setor pesa centenas de toneladas e chega já equipado com componentes críticos:
- segmento do vaso de vácuo em aço inoxidável
- duas bobinas de ímanes supercondutores (parte do sistema magnético)
- blindagem térmica e interfaces para aquecimento e diagnóstico
O objetivo é diminuir o trabalho “artesanal” no local - mas isso só é possível se cada peça chegar com geometria, superfícies e ligações prontas para integrar.
Um bailado de gruas sem margem para erros
A instalação de cada módulo é mais coreografia do que força bruta. Antes de entrar na zona de montagem, o setor passa por limpeza e controlo de contaminantes: num reator de vácuo, pó e óleos podem significar mais desgaseificação, pior vácuo e medições menos fiáveis.
Depois, gruas de ponte levam o módulo até à fossa do tokamak. As folgas são mínimas; aqui fala-se em submilímetros. Por isso, tudo é ensaiado e executado devagar, com pontos de paragem definidos e verificação permanente.
Cada elevação é ensaiada como se fosse uma missão espacial: os percursos são mapeados, as tolerâncias são verificadas e os operadores avançam a um ritmo medido em centímetros por minuto, em vez de metros.
Na aproximação final, a metrologia a laser e as referências de alinhamento guiam o módulo em três dimensões. O setor tem de encaixar nas peças vizinhas e, simultaneamente, respeitar as interfaces para ímanes, suportes e circuitos de arrefecimento. Um pequeno desvio hoje pode transformar-se num grande problema amanhã: tensões mecânicas inesperadas, dilatações térmicas fora do previsto ou dificuldades de selagem.
- Limpeza e inspeção em ambiente controlado
- Transferência lenta por gruas de ponte para o pavilhão de montagem
- Posicionamento fino sobre a fossa com metrologia a laser
- Baixada para o lugar com tolerâncias submilimétricas
- Suportes temporários, seguidos de soldadura e interligação
Um estaleiro global num vale francês
Vários países, uma só máquina
Por trás desta instalação há um puzzle industrial à escala mundial. Os membros do ITER - UE, China, Índia, Japão, Coreia do Sul, Rússia e EUA - fornecem muitos componentes “em espécie” (peças e know-how), e não apenas financiamento. Isto distribui capacidade industrial, mas torna mais complexas a integração, a logística e o controlo de qualidade: tudo tem de encaixar, mesmo vindo de cadeias de fabrico distintas.
No vaso de vácuo e sistemas associados, um consórcio China–França liderado pela CNPE (com a Framatome) assegura a integração de elementos como o crióstato, as alimentações de potência dos ímanes e a montagem dos setores na fossa.
A italiana SIMIC co-gestiona o posicionamento e a interligação, enquanto a indiana Larsen & Toubro fica responsável por soldaduras ultraprecisas de aberturas e portas do vaso. Depois de os nove setores estarem montados, a norte-americana Westinghouse supervisionará as soldaduras circunferenciais finais que transformam as “fatias” num anel único e estanque.
Não existem peças de substituição “em stock”. Muitas interfaces são feitas à medida e, em algumas zonas, as tolerâncias descem para níveis típicos da indústria aeroespacial. Isso ajuda a perceber por que motivo a sequência de inspeções, limpeza e verificação de alinhamentos pesa tanto no calendário.
Ponto de situação do projeto
| Módulo | Data de instalação | Estado |
|---|---|---|
| Módulo n.º 7 | Abril de 2025 | Instalado |
| Módulo n.º 6 | Junho de 2025 | Instalado |
| Módulo n.º 5 | 25 de novembro de 2025 | Instalado |
| Módulos n.º 1–4 e 8–9 | Planeado para 2026 | Instalação pendente |
Se o ritmo se mantiver, 2026 deverá trazer novas instalações a cada dois ou três meses. A seguir, começa outra fase crítica: fechar o vaso, concluir soldaduras, realizar testes de fugas (tipicamente com métodos de deteção por gás-traçador) e instalar componentes internos como o divertor e blocos de blindagem - peças concebidas para suportar cargas térmicas e de partículas na zona de “escape” do plasma.
Uma corrida contra os limites da engenharia e o calendário
O objetivo científico do ITER é demonstrar ganho energético claro em fusão: produzir muito mais energia de fusão do que a energia injetada para aquecer e controlar o plasma (o alvo clássico do projeto é 500 MW de potência de fusão a partir de cerca de 50 MW de aquecimento, ou seja, Q≈10).
Para isso, é necessário confinar um plasma de isótopos de hidrogénio a cerca de 150 milhões de °C usando ímanes supercondutores. Na fase mais exigente (deutério–trítio), os neutrões libertados são muito energéticos (cerca de 14 MeV), impondo requisitos severos a materiais, blindagens e manutenção.
Os setores do vaso agora instalados vão circundar esse plasma. As paredes terão de suportar:
- fluxos térmicos e ciclos repetidos de aquecimento/arrefecimento
- cargas mecânicas quando os ímanes “pulsam”
- ativação por neutrões ao longo dos anos, complicando intervenções e fim de vida
Visto de fora, acrescentar um terceiro setor parece apenas mais uma elevação pesada; para a comunidade da fusão, porém, assinala uma verdadeira passagem de desenhos e maquetas para uma máquina quase completa.
O ITER acumulou atrasos e aumentos de custos. As obras de base começaram em 2010; a meta inicial de primeiro plasma em 2025 já não é válida. Hoje, o projeto aponta para o fim da década para comissionamento “em vácuo” e para cerca de 2030 no caso do primeiro plasma de hidrogénio de baixa potência.
A fase com combustível deutério–trítio e alta potência de fusão está agora na janela 2035–2039. É aí que se espera testar, de forma mais completa, se uma central de fusão pode operar com repetibilidade, manutenção realista e disponibilidade compatível com produção elétrica.
Dinheiro, política e pressão
O custo estimado do ITER ultrapassa 22 mil milhões de euros, distribuídos pelos sete parceiros. A União Europeia assume a maior fatia (por ser a anfitriã), enquanto China, Índia, Japão, Coreia do Sul, Rússia e EUA contribuem com componentes principais e financiamento.
Com prazos a derrapar, as críticas são inevitáveis. Os defensores respondem que o ITER não é uma central elétrica: é um projeto de demonstração tecnológica que procura reduzir incertezas-chave (ímanes, vácuo, materiais, criogenia, robótica e manutenção remota). Ainda assim, há uma realidade simples: cada complexidade adicional no desenho tende a amplificar custo, risco e tempo de construção.
Politicamente, o ITER também funciona como projeto estratégico. Consolida competências industriais difíceis de replicar e alimenta programas paralelos (mais pequenos) que tentam encurtar o caminho para reatores demonstradores. Para a UE - e, por extensão, para Portugal - o valor está tanto na energia potencial futura como na base industrial e científica que se constrói ao longo do percurso.
O que a fusão significa, na prática, aqui
Termos-chave que continuam a surgir
A fusão junta núcleos atómicos leves para formar núcleos mais pesados, libertando energia - o mesmo processo que alimenta as estrelas. O ITER pretende usar deutério e trítio.
Para a fusão “pegar”, é preciso cumprir o chamado “produto triplo” (uma forma prática de dizer que não basta aquecer):
- temperatura muito elevada
- densidade de partículas suficiente
- tempo de confinamento suficiente
Como nenhum material aguenta tocar num plasma a estas temperaturas, o tokamak usa ímanes para criar uma “gaiola” magnética e manter o plasma afastado das paredes.
O vaso de vácuo em montagem é a barreira física que permite criar e manter um vácuo profundo e, ao mesmo tempo, suportar cargas e interfaces. A regra é simples: sem limpeza, estanquidade e geometria estável, não há condições repetíveis para experiências - e sem repetibilidade, não há validação de desempenho.
Riscos, limites e o que vem depois do ITER
A fusão não tem o mesmo risco de reação descontrolada da fissão: se as condições de confinamento falham, o plasma arrefece e a reação extingue-se rapidamente. Ainda assim, não é “isenta de radiologia”. Há dois pontos centrais:
- trítio: é radioativo e exige contenção, monitorização e contabilidade rigorosa
- ativação de materiais: neutrões tornam componentes do reator radioativos, o que condiciona manutenção, armazenamento e desmantelamento (muitas intervenções terão de ser remotas)
O outro grande teste é económico. Mesmo que o ITER prove a física e a engenharia, centrais comerciais terão de competir com renováveis baratas, armazenamento e outras tecnologias de base. Isso empurra o setor para soluções com menos peças, manutenção mais simples e construção mais rápida - porque “funcionar” não chega se custar demasiado ou demorar décadas.
Apesar das dúvidas, existe um caminho plausível: um bom resultado do ITER no final da década de 2030 pode acelerar centrais demonstradoras na década de 2040, a operar em conjunto com eólica e solar (e possivelmente fissão) para reduzir emissões e reforçar a segurança de abastecimento. Por agora, o avanço mede-se em aço, soldaduras, vácuo e milímetros - e o módulo n.º 5 é mais um passo concreto nessa direção.
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