A meio de uma tarde atribulada, é tentador enfileirar uma lavagem atrás da outra para “despachar”. O senão é que fazer ciclos consecutivos pode acelerar o desgaste e, em alguns casos, até piorar o cheiro e o resultado final - não por superstição, mas por causa do calor e da humidade que ficam “presos” dentro da máquina.
Muita gente só se apercebe quando surgem sinais como mau odor, centrifugação mais lenta, vibração fora do normal ou mensagens de erro no visor. Nessa altura, o hábito já vem de longe.
O motivo escondido: calor acumulado e peças sob stress
Durante um ciclo, aquecem o motor, a eletrónica, os rolamentos e a bomba, tudo num ambiente húmido. Se arrancar logo com outro programa, alguns componentes não têm tempo de arrefecer e a temperatura interna tende a subir acima do ideal - não “rebenta” de imediato, mas o desgaste aumenta quando isto vira rotina.
O risco é maior quando:
- a máquina está encastrada/num nicho com pouca ventilação (o ar quente não circula);
- terminou um programa quente e o vidro/porta ainda está morno ao toque;
- há muita centrifugação e a máquina já vibra mais do que seria normal.
Em modelos mais recentes, os sensores podem proteger alongando o tempo, reduzindo a rotação ou mostrando erro. Em modelos mais simples, o “aviso” aparece como mais ruído, mais vibração e envelhecimento acelerado de peças que deveriam durar anos.
Não é só a máquina: a lavagem também pode sair pior
Dois ciclos seguidos mantêm o tambor e a borracha da porta continuamente quentes e húmidos. Isso favorece biofilme, odores e acumulação de resíduos de detergente em zonas pouco visíveis (borracha, gaveta, tubo da gaveta).
Dois pontos que costumam agravar o problema:
- Excesso de detergente/amaciador: mais espuma e mais “lodo” a agarrar. Em Portugal, com água mais dura em muitas zonas, é fácil cair na tentação de aumentar a dose - mas compensa mais seguir a indicação para o nível de dureza e para o peso real da carga.
- Alternar cargas muito diferentes (toalhas pesadas → roupa leve): a máquina pode demorar mais a equilibrar e a centrifugação pode ficar menos eficiente. Resultado típico: roupa mais húmida, mais amarrotada e com cheiro menos fresco.
Regra prática: se a roupa sai muitas vezes “pesada” de água, nem sempre é falta de rotação - frequentemente é desequilíbrio da carga ou excesso de espuma.
Quando é que fazer dois ciclos seguidos é mesmo má ideia?
Nem sempre é proibido, mas convém evitar ao máximo quando há:
- ciclos a alta temperatura (60–90 ºC) em sequência;
- cargas muito pesadas (toalhas, edredões, cobertores, tapetes), que puxam mais pelo motor e pela suspensão;
- máquinas encastradas ou lavandarias pequenas, com pouca circulação de ar;
- sinais de alerta: cheiro a mofo, ruídos na centrifugação, vibração fora do normal, erros no visor.
Se a máquina está num canto apertado, “duas seguidas” pesa muito mais do que numa zona ampla e bem ventilada.
O que fazer em vez disso: um intervalo curto que faz diferença
Não precisa de ser uma regra rígida: pense em “arrefecer e secar”. Um intervalo de 20 a 60 minutos entre ciclos (sobretudo depois de um programa quente) já ajuda a baixar a temperatura e a reduzir a humidade na borracha e no tambor. Se a máquina estiver quente ao toque ou encastrada, aponte mais para os 45–60 minutos.
Mini-ritual (30 segundos) ao terminar:
- deixe a porta e a gaveta do detergente entreabertas para arejar;
- passe um pano na borracha da porta se costuma ficar água acumulada;
- quando for conveniente, verifique o filtro (sobretudo se há pêlos, areia, tecidos que largam fios).
Extra útil (sem exageros): fazer de vez em quando um ciclo quente “de manutenção” (com a máquina vazia, conforme as instruções do fabricante) ajuda a reduzir odores e resíduos - especialmente se usa muito programas frios/rápidos.
Um atalho prático para dias de muita roupa
Em dias com muita roupa (regresso de férias, crianças, lençóis), em vez de dois ciclos pesados seguidos:
- intercale um ciclo mais leve/curto entre dois mais exigentes, ou
- use o “fim diferido” para empurrar o segundo ciclo para mais tarde (também pode ajudar quem tem tarifário bi-horário).
Se a pressa for o motivo, muitas vezes compensa mais:
- ajustar a dose de detergente ao tamanho da carga (evita espuma e resíduos),
- não encher demasiado o tambor (deixar folga para a roupa “cair” e lavar melhor),
- escolher um programa adequado (Eco/Diário conforme a sujidade e o tecido), em vez de “empilhar” lavagens.
| Situação | O que acontece | Alternativa rápida |
|---|---|---|
| Dois ciclos quentes seguidos | Aumenta o calor interno e acelera o desgaste | Pausa 30–60 min e porta aberta |
| Cargas muito pesadas em sequência | Mais vibração e esforço na suspensão/motor | Intercalar ciclo leve ou dividir a carga |
| Interior sempre húmido | Mais odor e biofilme na borracha/gaveta | Ventilar e secar pontos críticos |
No fundo, a regra é simples: menos pressa, mais vida útil
Fazer a máquina trabalhar duas vezes seguidas não é um “pecado”. Mas, repetido muitas vezes, reduz a margem térmica e aumenta a probabilidade de problemas chatos (cheiro, ruído, vibração, falhas). Um intervalo curto e um pouco de ventilação costumam ser suficientes para proteger a máquina e melhorar o resultado da roupa.
FAQ:
- É obrigatório esperar entre lavagens? Não. Mas é aconselhável após programas quentes, cargas pesadas e em máquinas com pouca ventilação.
- Quanto tempo devo esperar? Em muitos casos, 20–60 minutos. Se estiver quente ao toque/encastrada, espere mais perto de 60.
- Posso fazer dois ciclos seguidos se forem rápidos e frios? Em geral, é menos exigente do que dois ciclos quentes. Mesmo assim, abrir a porta entre ciclos ajuda muito a evitar odores.
- O que estraga mais: dois ciclos seguidos ou uma carga demasiado pesada? Normalmente, a carga demasiado pesada (mais esforço em motor, rolamentos e suspensão). Se tiver de escolher, divida a carga primeiro.
- O mau cheiro vem de fazer lavagens seguidas? Pode contribuir por manter o interior húmido. Muitas vezes é combinação de humidade + excesso de detergente/amaciador + pouca ventilação + pouca manutenção (filtro/gaveta/borracha).
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