Porque é que os gatos escondem o seu sofrimento
Os gatos foram “programados” para não revelar fraqueza. Na natureza, parecer vulnerável aumenta o perigo. Esse instinto mantém-se mesmo nos gatos que vivem em apartamento.
Por isso, um gato com dor pode continuar a ronronar, a pedir comida e até a saltar. Esperar por sinais muito evidentes costuma atrasar o diagnóstico.
Identificar sinais subtis cedo é, muitas vezes, o que separa um problema pequeno e tratável de uma urgência a meio da noite.
Nas clínicas, “esta semana esteve só um bocadinho mais quieto” é uma das frases mais comuns em situações que já estão avançadas. Então, o que deve contar como alerta?
1. Alterações súbitas no apetite
Recusar comida nunca é “só uma mania”
Ser seletivo é comum. Deixar de comer, não. Saltar uma refeição pode acontecer; voltar a repetir-se ou recusar totalmente merece atenção.
Esteja atento a:
- Ignorar snacks habituais
- Cheirar a comida e afastar-se
- Mastigar apenas de um lado
- Deixar cair comida
Isto pode indicar dor dentária, náuseas, doença renal, stress ou febre. O oposto também importa: comer muito mais e, ainda assim, emagrecer pode sugerir alterações hormonais/metabólicas (por exemplo, hipertiroidismo) ou diabetes.
Regra prática: comer muito menos ou nada durante 24 horas justifica contacto com o veterinário. Em gatos com excesso de peso, vários dias sem comer aumentam o risco de lipídose hepática (um problema sério do fígado).
2. Alterações nos hábitos da caixa de areia
Quando o tabuleiro conta uma história
A caixa de areia funciona como um “sensor” de saúde. Mudanças na urina ou nas fezes estão entre os primeiros sinais visíveis de doença.
Sinais de alerta:
- Fazer força e sair pouco/nada
- Ir muitas vezes e fazer apenas gotas
- Sangue na urina ou nas fezes
- Urinar fora (cama, sofá, lavatório)
- Obstipação ou diarreia aquosa por mais de um dia
Gatos machos com esforço para urinar ou apenas gotas são de alto risco: uma obstrução uretral pode tornar-se fatal em poucas horas.
Para ser mais objetivo, ajuda contar durante 1–2 dias: quantas idas à caixa, tamanho dos “bolos” de urina e se existe vocalização/dor.
- Fazer força para urinar: pode ser infeção/cistite ou obstrução. No próprio dia; em machos, trate como emergência.
- Diarreia persistente: pode ser parasitas, infeção, intolerância alimentar. Contacte o veterinário em 24–48 h (mais cedo se houver apatia, sangue ou desidratação).
- Novo comportamento de sujar a casa: muitas vezes é dor, artrose, stress, ou problema urinário. Precisa de consulta e ajuste do ambiente (localização/limpeza da caixa, número de caixas, acesso fácil).
3. Mudanças comportamentais e isolamento
Quando o guião social muda
Um gato sociável que começa a esconder-se raramente está “só numa fase”. Comportamento e saúde caminham lado a lado.
Sinais a levar a sério:
- Esconder-se por longos períodos
- Sibilos/patadas ao toque, sobretudo numa zona específica
- Dormir em locais invulgares (banheira, roupeiro)
- Perder interesse em brincar
Uma alteração brusca de personalidade (carinhoso → distante; calmo → irritável) aponta muitas vezes para dor, ansiedade ou doença.
Em gatos mais velhos, evitar colo ou festas pode ser artrose. Em gatos jovens, pode acontecer com dor urinária, problemas gastrointestinais ou lesões (até de uma queda “sem testemunhas”).
4. Vocalizações que soam “erradas”
Novos lamentos durante a noite
Quem vive com um gato reconhece os sons “habituais”. Quando a banda sonora muda, vale a pena investigar.
Preocupa mais quando:
- Um gato normalmente silencioso começa a uivar, sobretudo à noite
- O timbre muda (rouco, forçado, muito grave)
- Há miados durante a micção, higiene ou ao pegar ao colo
Uivos noturnos em gatos idosos podem estar ligados a declínio cognitivo, hipertensão, dor ou perda de visão. Gritos curtos ao toque/movimento sugerem frequentemente dor aguda.
5. Higiene invulgar ou alterações no pelo
Quando o pelo deixa de “assentar”
Gatos saudáveis mantêm a higiene de forma consistente. Mudanças quase sempre têm um motivo.
Sinais de alerta:
- Pelo oleoso, baço ou desgrenhado (muitas vezes no dorso/base da cauda)
- Zonas sem pelo por lambidela excessiva
- Cheiro intenso do pelo/pele
- Foco insistente numa área (abdómen, patas)
Pelo emaranhado ou sem brilho pode ser uma das primeiras pistas de dor crónica ou mal-estar.
Com artrose, pode ser difícil alcançar a zona lombar e as patas traseiras. Alergias, parasitas, stress e dor vesical também podem desencadear lambidelas obsessivas, por vezes até abrir ferida.
6. Alterações no movimento e na postura
Coxear silencioso e saltos rígidos
Os gatos nem sempre coxeiam de forma óbvia: adaptam-se. O “novo jeito” costuma ser o sinal.
Procure:
- Hesitação antes de saltar
- Usar móveis como degraus
- Rigidez após dormir
- Costas arqueadas ou cabeça baixa
Uma pata pode nunca pousar bem. Dor lombar pode surgir como recusa de festas na coluna ou aversão súbita a escovar.
7. Alterações subtis nos ritmos diários
Sono, sede e peso como alarmes silenciosos
Como já dormem muito, é fácil ignorar “só mais um pouco”. Ainda assim, os padrões do dia a dia são pistas fortes.
Sinais importantes:
- Beber muito mais (ou muito menos)
- Emagrecer (coluna/ancas mais salientes ao toque)
- Inquietação noturna ou mudanças constantes de posição
- Respiração mais rápida em repouso, ou de boca aberta
Pesar o seu gato mensalmente (balança + colo, ou balança de bebé) apanha perdas graduais antes de se tornarem óbvias.
Como regra prática, conte a respiração em repouso (a dormir ou muito calmo): valores persistentemente acima de ~30 respirações/minuto, ou respiração com esforço, justificam contacto rápido com o veterinário. Aumento de sede e micção costuma andar junto e pode apontar para doença renal, diabetes ou alterações hormonais, sobretudo em gatos seniores.
Como reagir quando nota estes sinais
Da observação à ação
Faça um registo simples: data, apetite, água, urina/fezes, comportamento e o que mudou. Fotos do vómito/fezes e um vídeo de tosse, respiração ou marcha ajudam muito na triagem.
Se tiver dúvidas, ligue para a clínica em vez de esperar. Muitas equipas orientam por telefone e dizem se é para hoje, amanhã ou urgência.
- Emergências: dificuldade em respirar, vómitos repetidos com prostração, incapacidade de urinar, colapso, convulsões, trauma
- Alta prioridade: sem comer 24 h, mudança comportamental súbita e marcada, dor evidente, sangue na urina/fezes
- Avaliação rápida: apetite reduzido, coxeira ligeira, novos problemas de higiene, aumento da sede
Nota de segurança: não dê medicamentos humanos (por exemplo, paracetamol/ibuprofeno) - podem ser tóxicos para gatos.
Termos úteis que os tutores ouvem frequentemente
Tornar a linguagem veterinária menos críptica
“Crónico” não significa “sem solução”; significa apenas contínuo/longa duração (como doença renal ou artrose). “Agudo” é súbito e, em geral, mais intenso (como obstrução urinária ou uma queda).
“Qualidade de vida” é uma avaliação prática: dor, mobilidade, apetite, higiene, interação e interesse. Reconhecer sinais cedo permite conversar sobre opções (controlo da dor, dieta, ajustes em casa) antes de chegar a um dia de crise.
Cenários reais que muitas vezes passam despercebidos
Um gato de 9 anos passa a dormir no rés-do-chão em vez de na cama. É fácil atribuir à “idade”. Mas pode ser um sinal claro de que saltos e escadas doem (artrose/anca). Muitas vezes, pequenos ajustes ajudam: rampas, degraus, caixa de areia de entrada baixa, água/comida sem necessidade de saltar.
Outro exemplo: um gato jovem, de interior, urina numa pilha de roupa. Castigar é uma reação comum, mas raramente resulta. Esse padrão está muitas vezes associado a stress, dor vesical, caixa suja, areia que mudou, ou tabuleiro mal localizado. Tratar a causa e melhorar o ambiente costuma trazer resultados muito melhores do que ralhar.
Os gatos raramente agem “por vingança”. Por trás de quase todo o comportamento indesejado há dor, medo, confusão ou desconforto.
Quando começa a ver estes sete sinais como mensagens, a relação muda: torna-se mais fácil agir cedo, com menos culpa e menos urgências evitáveis.
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