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"Tenho mais de 60 anos e o meu equilíbrio dependia do calçado": a importância da espessura da sola

Pessoa a caminhar numa ponte de madeira, segurando sapatos. Mochila e garrafa de água ao fundo.

O dia em que me caiu a ficha de que o meu equilíbrio podia depender dos sapatos aconteceu no supermercado: chão polido, carrinho a deslizar, e eu a oscilar sem perceber. Não cheguei a cair, mas senti aquele alerta do corpo. Baixei os olhos: ténis novos, sola grossa e muito macia - “conforto” - e, mesmo assim, a sensação era de caminhar sobre almofadas.

Saí de lá com uma pergunta simples: talvez não seja só a idade; talvez seja o que levo nos pés. Uma semana depois, fui experimentar a sério.

Quando o teu equilíbrio começa ao nível do chão

Depois dos 60, o equilíbrio costuma falhar primeiro nas pequenas coisas: um lancil, um degrau que passa despercebido, um passeio irregular. Começas a abrandar “por precaução”, a escolher onde pousar o pé, a procurar apoios.

Foi então que reparei num pormenor que passamos anos a ignorar: os centímetros entre o pé e o chão. Não a estética - a espessura e o “efeito plataforma”.

Fiz um teste simples no mesmo percurso: sabrinas antigas, sapatilhas modernas de sola grossa e uns sapatos de caminhada muito amortecidos. Resultado:

  • Com as sabrinas, sentia melhor o chão e ficava mais “plantado”.
  • Com as sapatilhas grossas, o passo era leve, mas menos firme.
  • Com os ultra-amortecidos, foi o pior: ótimo parado, instável a andar, como em cima de um colchão.

Isto costuma ter duas explicações práticas:

1) Altura a mais (sobretudo no calcanhar) sobe o centro de gravidade e facilita “torcer” o tornozelo num desnível.
2) Espuma a mais rouba informação ao pé. A planta do pé é um sensor; se a borracha/amortecimento “filtra” tudo, o cérebro demora mais a perceber onde está o chão.

Num piso perfeito, quase nem dás por isso. Mas em calçada portuguesa, passadeiras gastas ou chão molhado, esse atraso conta.

O calçado promete conforto. O corpo, muitas vezes, pede contacto real com o chão.

Como escolher solas que realmente protegem o teu equilíbrio

Há um método simples que me ajuda a decidir rapidamente.

1) A “regra de dois dedos” (com bom senso)
Olha para a sola de lado. Se o calcanhar parece claramente mais alto do que “duas larguras de dedo” (muitas vezes, acima de ~3 cm), fico desconfiado. Não é uma lei - é um atalho para evitar plataformas disfarçadas.

2) O teste de flexão (onde dobra é o que importa)
Dobra o sapato com as mãos. O ideal é fletir no antepé (perto dos dedos) e manter alguma estrutura no meio.
- Se for rígido como uma tábua: o pé não trabalha bem.
- Se dobrar e torcer por todo o lado: pode faltar estabilidade.

3) Atenção ao “demasiado macio”
Na loja, uma sola esponjosa sabe muito bem. Na rua, pode obrigar o corpo a micro-correções a cada passo - e a fadiga piora o equilíbrio, sobretudo ao fim do dia.

Se quiseres ir um pouco além da espessura (e vale a pena), confirma também:

  • Sola com bom relevo antiderrapante, principalmente se andas muito na rua (e ainda mais com chuva).
  • Contraforte firme (a parte de trás que segura o calcanhar): ajuda a estabilizar o tornozelo.
  • Base estável: solas muito “arredondadas” ou estreitas podem facilitar o balanço.
  • Boa fixação ao pé (atacadores, velcro, tira no peito do pé): chinelos e pantufas soltas são campeões de tropeções em casa.
  • Desgaste: se a sola já está lisa ou “viciada” para um lado, o risco aumenta - mesmo que o sapato ainda pareça confortável.

“Aos 62, percebi que não precisava de mais amortecimento, precisava de mais verdade debaixo dos pés”, disse-me uma enfermeira reformada. “Quando passei para solas moderadas e mais baixas, deixei de andar agarrada aos corrimões.”

Se gostas de números como referência (não como regra):

  • À frente: muita gente sente-se estável com ~1–2 cm.
  • No calcanhar: muitas vezes ~2–3 cm, evitando plataforma e excesso de “moleza”.
  • Desnível calcanhar–antepé: tende a ser mais fácil de controlar quando é pequeno a moderado.

E um teste rápido na loja (discreto, mas muito útil):

  • Fica 3 segundos em apoio numa perna, com o sapato calçado e sem te agarrares. Se o pé “dançar” ou o tornozelo ceder, provavelmente vais lutar com aquilo todos os dias.

Reaprender a confiar nos teus passos depois dos 60

Quando ligas os pontos, começas a notar detalhes na rua: ténis volumosos que parecem seguros mas abanam, mocassins rígidos que não deixam o pé trabalhar, sapatos simples e baixos que dão uma passada firme. Com a idade, o calçado torna-se uma forma silenciosa de proteção.

Trocar de sapatos não resolve tonturas, neuropatias ou problemas do ouvido interno. Se o desequilíbrio surgiu de repente, piorou muito, ou vem com quedas, vale a pena falar com o médico. Mas quando a queixa é “sinto-me inseguro a andar”, o calçado é uma das mudanças mais rápidas e controláveis.

Para ajudar o corpo a recuperar confiança (sem grandes programas):

  • Em casa, faz 1 minuto por dia de apoio numa perna junto a uma parede, só para reacordar o controlo.
  • Alterna com calma: se vens de solas muito grossas, não passes para super finas de um dia para o outro - dá tempo aos pés e gémeos para se adaptarem.
  • Mantém um par “de confiança” à porta para compras, escadas e transportes. Os sapatos mais bonitos e altos podem ficar para momentos curtos - sem culpa.

Com o tempo, a confiança volta de forma discreta: andas mais solto, olhas menos para o chão e atravessas a rua sem prender a respiração.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Espessura moderada da sola Menos “plataforma”, mais proximidade ao chão Mais estabilidade no dia a dia
Flexível no sítio certo Dobra sobretudo no antepé, com estrutura no meio Melhor leitura do piso sem perder conforto
Testes no mundo real Apoio numa perna + pequena caminhada em loja Evita comprar só pela sensação “fofinha”

FAQ:

  • Pergunta 1: Solas grossas são sempre más para o equilíbrio depois dos 60?
  • Resposta 1: Não. Podem funcionar se forem estáveis, com altura moderada e sem amortecimento “mole” em excesso. O problema é a combinação de altura + maciez + instabilidade.
  • Pergunta 2: Devo mudar apenas para sapatos rasos?
  • Resposta 2: Nem sempre. Muito raso e muito duro pode cansar. Para muita gente, um pequeno salto e amortecimento moderado é o meio-termo mais confortável e seguro.
  • Pergunta 3: Mudar de sapatos pode mesmo reduzir o meu risco de queda?
  • Resposta 3: Muitas vezes, sim - sobretudo se os anteriores eram altos, lisos por baixo, muito moles ou já deformados. Não é o único fator, mas é um dos mais fáceis de ajustar.
  • Pergunta 4: Quantos pares preciso para ter bom equilíbrio?
  • Resposta 4: Pelo menos um par “principal” para caminhadas e tarefas diárias, estável e bem preso ao pé. O resto pode variar conforme o teu estilo e ocasião.
  • Pergunta 5: E se eu tiver palmilhas ortopédicas?
  • Resposta 5: Escolhe sapatos com palmilha amovível e espaço suficiente, sem aumentar demasiado a altura total. Leva as palmilhas quando fores experimentar.

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