Em vez de construir todos os seus drones de combate em casa, a Ucrânia está a transferir uma grande fatia da produção para a Alemanha, apostando que uma linha de fabrico transfronteiriça pode, ao mesmo tempo, abastecer o seu exército e transformar o seu know-how em drones num negócio de exportação relevante.
Uma aposta de guerra em solo estrangeiro
O novo passo da Ucrânia centra-se numa joint venture entre a start-up Frontline Robotics, sediada em Kiev, e a fabricante alemã de drones Quantum Systems. Os parceiros criaram uma nova empresa, a Quantum Frontline Industries, que irá montar milhares de drones de conceção ucraniana em território alemão.
O plano é ambicioso desde o primeiro dia. O primeiro objetivo: 10 000 drones, todos destinados às Forças Armadas ucranianas. Para um país que corre para acompanhar a adaptação da Rússia no campo de batalha, esse número não é apenas simbólico. Indica uma mudança da produção improvisada, em pequenos lotes, para algo mais próximo de uma verdadeira economia de guerra.
Ao produzir na Alemanha, a Ucrânia pretende proteger o seu abastecimento de drones de ataques russos e ligar-se diretamente à base industrial da Europa.
A fábrica, que deverá ser instalada no coração industrial de alta tecnologia da Alemanha, vai apoiar-se na rede existente de fornecedores, engenheiros e instalações de testes da Quantum Systems. A Frontline Robotics aporta designs testados em combate e o tipo de retorno do campo de batalha que nenhum laboratório alemão consegue gerar por si só.
Porquê a Alemanha e não Kiev?
No papel, deslocar a produção de drones para fora de um país que luta pela sua sobrevivência parece arriscado. Na prática, as autoridades ucranianas encaram-no como uma forma de seguro.
- Mísseis e drones russos atingem repetidamente instalações de defesa ucranianas.
- Os seguros e o financiamento para fábricas dentro da Ucrânia continuam frágeis.
- O território da UE oferece regras mais previsíveis e contratos de longo prazo.
- Sistemas fabricados na Alemanha são mais fáceis de vender no exterior ao abrigo das regras europeias de exportação.
Há também uma nuance legal. Drones fabricados na Ucrânia são, na prática, requisitados para a defesa nacional. Isso deixa muito pouca margem para acordos de exportação, mesmo quando há compradores estrangeiros interessados. Quando a produção passa para a Alemanha, quaisquer unidades para além das primeiras 10 000 para Kiev podem, em princípio, ser comercializadas junto de outros exércitos.
Transferir a montagem para lá da fronteira transforma a inovação ucraniana do campo de batalha num produto que os ministérios da defesa europeus podem, de facto, comprar.
Segundo informação partilhada através do Financial Times, já decorrem conversações com as Forças Armadas alemãs sobre potenciais encomendas. Para uma empresa jovem como a Frontline Robotics, isso pode significar um caminho de start-up de guerra autofinanciada para fornecedora de defesa de longo prazo.
O drone Linza: das trincheiras à linha de montagem
No centro do projeto está uma plataforma específica: o drone Linza. Trata-se de uma aeronave de asas rotativas já em uso em partes da frente ucraniana. Os soldados utilizam-no para reconhecimento, apoio à aquisição de alvos e vigilância do campo de batalha, sobretudo em áreas onde a interferência de GPS é intensa e as manobras terrestres são lentas.
Para que foi concebido o Linza
| Característica | Finalidade em combate |
|---|---|
| Design de asas rotativas | Descolagem e aterragem vertical a partir de trincheiras ou clareiras na floresta |
| Cargas úteis modulares | Alternar entre câmaras, sensores e munições ligeiras consoante a missão |
| Ligações de comunicação seguras | Reduzir o risco de interceção e de interferência perto da frente |
| Estrutura compacta | Fácil de transportar, reparar e ocultar da deteção inimiga |
Espera-se que as linhas de produção alemãs normalizem e escalem a plataforma Linza. Isso significa maior controlo de qualidade, peças sobresselentes mais previsíveis e pacotes de formação que os exércitos ocidentais normalmente exigem antes de fazer grandes encomendas.
Da guerra de drones à guerra industrial
A parceria também aponta para uma mudança mais ampla na forma como a Ucrânia encara o conflito. Como afirmou, numa declaração citada por meios franceses, o co-CEO da Quantum Systems, Sven Kruck, as forças ucranianas remodelaram a guerra moderna de drones por necessidade e improvisação. A fase seguinte passa por industrializar essa experiência.
“Os ucranianos revolucionaram a guerra de drones; agora vamos revolucionar juntos a guerra industrial”, disse o executivo alemão.
Essa linguagem ecoa a própria mensagem de Kiev. Em junho, o Presidente Volodymyr Zelensky lançou a iniciativa “Build with Ukraine”, uma plataforma concebida para atrair parceiros estrangeiros para joint ventures de defesa. O objetivo é aumentar a produção, garantir capital estrangeiro e assegurar que os designs ucranianos não ficam presos a um único país vulnerável.
Oleksandr Kamyshin, conselheiro para as indústrias estratégicas, já assinalou que o acordo de drones com a Quantum Systems é apenas uma de várias coempresas em discussão. O modelo é simples: juntar a experiência ucraniana em combate ao capital, logística e canais de exportação do Ocidente.
Mais intervenientes a entrar na guerra de drones e eletrónica
A joint venture não acontece no vazio. Investidores ucranianos e aliados estão a montar um pequeno ecossistema de empresas que se ligam a diferentes dimensões da guerra moderna.
O grupo de investimento ucraniano-americano MITS Capital está a trabalhar em potenciais parcerias com:
- Tencore, empresa dinamarquesa focada em drones terrestres para logística, desminagem e reconhecimento.
- Infozahyst, empresa ucraniana especializada em inteligência eletromagnética, usada para detetar e analisar comunicações e radar inimigos.
- Unwave, fornecedora de equipamento de guerra eletrónica capaz de interferir ou confundir drones e mísseis que se aproximam.
Em conjunto, estas empresas cobrem um leque de tecnologias: veículos não tripulados no ar e no solo, sensores que captam sinais inimigos e sistemas concebidos para cegar ou perturbar esses sinais. A proposta da Ucrânia aos governos ocidentais é simples: usar o país como um enorme campo de testes e, depois, escalar o que funciona.
O que isto significa para a defesa europeia
Para a Alemanha e outros Estados europeus, o projeto sinaliza uma mudança discreta no sentido de deixar de depender apenas dos grandes grupos tradicionais de defesa. Start-ups como a Frontline Robotics conseguem adaptar o hardware rapidamente, com base em retorno quase em tempo real de soldados destacados na linha da frente.
Ao mesmo tempo, colocar a produção na Alemanha dá a Berlim uma supervisão mais direta sobre como a tecnologia avançada de drones é utilizada e exportada. Isso é politicamente relevante, numa altura em que os governos europeus enfrentam debates públicos sobre vendas de armas e potenciais escaladas com a Rússia.
O acordo transforma a Ucrânia de mera recetora de armas europeias em contribuinte para a própria cadeia de abastecimento de defesa da Europa.
Outros países acompanham de perto. Se o modelo funcionar, joint ventures semelhantes poderão surgir na Polónia, na República Checa ou nos Estados bálticos, que acolhem fabricantes de defesa interessados em produtos testados em combate.
Conceitos-chave por trás da estratégia
Porque é que as regras de exportação fazem tanta diferença
As exportações de armamento são fortemente reguladas, e os drones não são exceção. Quando um sistema é fabricado na Ucrânia, as regras de guerra dão prioridade ao exército nacional, que pode requisitar praticamente qualquer unidade que saia de uma fábrica. Isso garante abastecimento para Kiev, mas deixa pouca margem para vendas no exterior.
Ao montar drones na Alemanha, a empresa conjunta passa a estar sujeita a controlos europeus de exportação. Estes são rigorosos, mas previsíveis, e permitem planeamento plurianual com compradores estrangeiros. Para investidores, esse tipo de estabilidade legal pesa muitas vezes mais do que a procura no campo de batalha.
Riscos e consequências não intencionais
Deslocar capacidade para o exterior traz os seus próprios riscos. Alguns críticos na Ucrânia receiam que empregos industriais de alto valor e propriedade intelectual escapem do país. Existe também o perigo de, um dia, parceiros estrangeiros priorizarem os seus próprios contratos nacionais em detrimento das necessidades ucranianas, se os ventos políticos mudarem.
Do ponto de vista técnico, grandes fábricas podem ser mais lentas a ajustar designs do que pequenas oficinas perto da linha da frente. Numa guerra de drones em que atualizações de software e novas táticas aparecem a cada poucas semanas, esse atraso é relevante. A joint venture terá de criar mecanismos de retorno rápido das unidades ucranianas para que as mudanças no campo de batalha cheguem rapidamente à linha de montagem alemã.
Como estes drones podem mudar a vida diária na frente
Para os soldados ucranianos, o sucesso deste projeto será medido menos em produção industrial e mais em capacidade de sobrevivência diária. Um fluxo constante de drones fiáveis pode significar:
- Ataques de artilharia mais precisos, reduzindo o desperdício de munições.
- Deteção mais rápida de movimentos inimigos, sobretudo à noite.
- Evacuações médicas mais rápidas quando drones de asas rotativas são adaptados para carga ligeira.
- Menor exposição para equipas de reconhecimento que, de outra forma, teriam de avançar a pé.
Na prática, uma unidade equipada com drones do tipo Linza em quantidade suficiente pode monitorizar vários quilómetros de linha da frente quase de forma contínua. Essa persistência torna ataques surpresa mais difíceis e dá aos comandantes mais confiança para rodar tropas ou tentar pequenos contra-ataques.
A combinação de drones aéreos como o Linza, drones terrestres de empresas como a Tencore e ferramentas de guerra eletrónica de firmas como a Unwave desenha um estilo de combate diferente: menos tanques grandes e mediáticos, mais robôs baratos e sensores ligados entre si em tempo real.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário