À medida que as tensões com Pequim se agudizam e o debate sobre um possível confronto em torno de Taiwan se torna mais audível, um influente think tank do sector aeroespacial está a instar Washington a expandir de forma dramática os seus planos para aeronaves de nova geração, argumentando que o rumo actual deixa a América exposta.
Think tank pede uma frota aérea maior e mais letal
O Mitchell Institute for Aerospace Studies afirma que a Força Aérea precisa de, pelo menos, 500 caças e bombardeiros de sexta geração se quiser ter uma hipótese realista de derrotar a China num conflito de alta intensidade.
Esse número está muito acima do que o ramo está actualmente a planear adquirir.
O relatório argumenta que os planos actuais da Força Aérea deixam os Estados Unidos sem aeronaves furtivas e de longo alcance suficientes para ameaçar o território da China e a sua infra-estrutura militar.
Num novo documento de política intitulado “Strategic Attack: Maintaining the Air Force’s Capacity to Deny Enemy Sanctuaries”, analistas do Mitchell apresentam uma mensagem dura: os EUA têm de ser capazes de atacar em profundidade dentro da China, em grande escala e repetidamente, ou arriscam ser arrastados para uma guerra de desgaste que podem não vencer.
O estudo recomenda:
- Pelo menos 300 caças F-47 de sexta geração
- Pelo menos 200 bombardeiros furtivos B-21 Raider
- Uma frota total de bombardeiros de 300 aeronaves, somando todos os tipos
A Força Aérea já tinha avançado com planos de “pelo menos” 185 F-47 e cerca de 100 B-21, números que o think tank considera insuficientes para um combate contra um adversário de nível equivalente.
Porque é que a China é vista como um tipo diferente de ameaça
Investigadores do Mitchell Institute defendem que a China está deliberadamente a construir um santuário no Pacífico ocidental, rodeado por defesas aéreas, aeronaves e mísseis concebidos para manter as forças dos EUA à distância.
Heather Penney, antiga piloto de F-16 e actualmente directora de investigação do instituto, afirmou num briefing online que Pequim está a trabalhar para criar uma zona “proibida” para aeronaves norte-americanas, estendendo-se para lá da sua linha costeira.
Penney avisou que permitir que a China trate o Pacífico ocidental como um refúgio seguro daria a Pequim uma grande vantagem estratégica e aumentaria o risco de derrota dos EUA.
Na perspectiva do think tank, o problema central não é apenas de números, mas de alcance. Se os EUA não conseguirem manter em risco alvos militares e económicos chineses-chave, então os líderes chineses poderão sentir-se confiantes para lançar um primeiro ataque ou avançar sobre Taiwan, assumindo que Washington hesitará em escalar.
Lições da Coreia, do Vietname e da Ucrânia
O relatório liga os seus alertas à história. Penney apontou as guerras da Coreia e do Vietname, em que uma capacidade limitada - ou falta de vontade política - para atingir alvos inimigos cruciais levou a conflitos prolongados com elevadas baixas.
Referiu também a dificuldade da Ucrânia em levar o combate para dentro do território russo, argumentando que um lado que não consegue ameaçar as áreas de retaguarda do adversário acaba frequentemente num impasse e numa guerra de atrição.
Conflitos em que um dos lados não consegue atacar santuários inimigos tendem a transformar-se em guerras longas e dispendiosas, favorecendo o Estado com reservas mais profundas e menos restrições.
Para o Mitchell Institute, esse é o cenário de pesadelo num conflito com a China: uma guerra prolongada, à escala industrial, no Pacífico ocidental, travada em grande medida nos termos de Pequim.
Midnight Hammer mostra os limites da força de bombardeiros de hoje
Um dos exemplos mais marcantes no documento é uma operação recente conhecida como Midnight Hammer, uma campanha de ataques dos EUA que visou instalações nucleares iranianas.
A missão, executada com sucesso pela Força Aérea, dependeu de todos os bombardeiros furtivos B-2 Spirit disponíveis. Alguns participaram directamente nos ataques, enquanto outros voaram como iscos para confundir as defesas iranianas.
O aviso de Penney é directo: se algum B-2 tivesse sido abatido, não poderia ter sido substituído. Nem a Força Aérea poderia ter conduzido uma missão igualmente complexa na noite seguinte se a situação exigisse uma segunda vaga.
Esse tipo de capacidade de “tiro único”, argumenta, é perigosamente frágil quando se pensa em combater a China, que dispõe de defesas aéreas muito mais densas e modernas do que o Irão.
O que o think tank quer do Congresso e do Pentágono
Para além de defender 500 aeronaves de nova geração, o Mitchell Institute apresenta passos específicos que acredita que os líderes norte-americanos deveriam tomar na década de 2020 para evitar uma lacuna de capacidades.
Manter bombardeiros legados por mais tempo
O relatório insta a Força Aérea a não retirar os bombardeiros B-1 Lancer e B-2 Spirit até que, pelo menos, 100 B-21 Raider estejam operacionais.
Com apenas 76 B-52 em serviço, o think tank afirma que a frota de bombardeiros tem de atingir cerca de 300 aeronaves, o que implicaria comprar mais de 220 B-21.
Os planos actuais da Força Aérea prevêem a retirada gradual do B-1 e do B-2 e a transição para uma frota de dois bombardeiros - B-52 e B-21 - mas com números de B-21 inferiores aos recomendados pelo Mitchell.
Parar com o “desinvestir para investir” em esquadrões de caça
Do lado dos caças, Penney diz que a Força Aérea passou décadas a encolher a sua frota, prometendo que futuros jactos mais avançados compensariam a diferença.
Argumenta que essa estratégia chegou a um limite, deixando poucas aeronaves para cobrir compromissos globais e preparar uma grande guerra.
O instituto defende compras anuais de:
- 74 F-35A Joint Strike Fighter
- 24 F-15EX Eagle II
Penney diz que cada caça retirado deve ser substituído, pelo menos, numa base de um-por-um, com aeronaves adicionais de “combate colaborativo” - drones autónomos concebidos para voar ao lado de jactos tripulados - a expandirem ainda mais a força.
Porque é importante manter o território chinês em risco
Do ponto de vista estratégico, o argumento do Mitchell Institute é tanto sobre psicologia quanto sobre hardware. Os líderes chineses, dizem, devem acreditar que qualquer movimento contra Taiwan ou aliados dos EUA colocaria em perigo activos nacionais centrais.
Se Pequim sentir que as suas cidades, fábricas e centros de comando estão protegidos, pode aceitar perdas pesadas no mar ou perto de Taiwan, confiante de que o conflito não ameaçará o próprio regime.
Ao disponibilizar uma força maior de bombardeiros e caças furtivos, Washington pretende alterar esse cálculo. Opções de ataque em profundidade dariam aos EUA mais formas de responder à agressão, desde tiros de aviso limitados contra infra-estruturas militares até campanhas mais amplas se a dissuasão falhar.
Principais sistemas e jargão explicados
| Termo | O que significa |
|---|---|
| B-21 Raider | Um novo bombardeiro furtivo concebido para ultrapassar defesas aéreas e atacar alvos em profundidade dentro de território hostil. |
| F-47 | Um caça de sexta geração proposto, destinado a substituir ou complementar o F-22 e o F-35 com maior alcance e furtividade. |
| Aeronaves de combate colaborativo | Drones armados e autónomos que operam em equipa com jactos tripulados, actuando como batedores, iscos ou plataformas adicionais de armamento. |
| Santuário | Uma área que o inimigo acredita estar a salvo de ataque, como o seu território nacional ou bases-chave. |
Estes conceitos estão no centro do argumento do Mitchell Institute: sem aeronaves furtivas e drones em número suficiente, os EUA não conseguem entrar de forma fiável naquilo que a China espera que seja a sua zona-santuário.
Como poderia ser um conflito com a China
Jogos de guerra conduzidos por analistas de defesa norte-americanos começam frequentemente com um movimento chinês sobre Taiwan, seguido de rápidos ataques de mísseis e ataques aéreos a bases americanas e aliadas no Japão e em Guam.
Se as forças dos EUA forem empurradas para trás centenas ou mesmo milhares de milhas, apenas aeronaves de longo alcance e submarinos conseguem retaliar em grande escala. É aí que entram os 500 caças e bombardeiros de nova geração propostos.
Nessas simulações, ter mais bombardeiros furtivos e caças avançados altera a rapidez com que os EUA conseguem destruir defesas aéreas chinesas, atacar portos e aeródromos e cortar forças navais no mar.
Uma frota aérea maior e mais resistente também dá aos líderes dos EUA mais opções nas primeiras horas de uma crise, quando sinalização e ataques limitados ainda podem evitar uma guerra total.
Riscos e contrapartidas por detrás dos números
Comprar centenas de aeronaves adicionais traz riscos claros. Os orçamentos são finitos, e grandes montantes dirigidos a bombardeiros e caças limitam o que pode ser gasto em navios, mísseis e sistemas espaciais.
Há também o desafio de tripulações, equipas de manutenção e bases. Aeronaves no papel não importam se os esquadrões estiverem subdimensionados ou se os jactos ficarem no chão por falta de peças sobresselentes.
Ainda assim, a tese central do Mitchell Institute é que o maior risco está em subestimar a China e assumir que um punhado de plataformas sofisticadas será suficiente. Numa confrontação entre duas potências industriais armadas com mísseis avançados, a massa continua a contar.
Por agora, é provável que o debate sobre quantos caças e bombardeiros a América precisa se intensifique no Capitólio, à medida que os legisladores conciliam orçamentos com uma balança militar em rápida mudança no Pacífico ocidental.
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