Por detrás de portas fechadas, responsáveis suecos estão a testar o terreno com Paris e Londres, avaliando até onde poderá ir a cooperação nuclear num panorama estratégico em rápida transformação.
A Suécia entra discretamente na conversa nuclear
O primeiro-ministro Ulf Kristersson confirmou que a Suécia está a manter conversações numa fase inicial com a França e o Reino Unido sobre uma possível cooperação em matéria de armas nucleares. As discussões são descritas como “não muito precisas” e não têm um calendário claro, mas a sua existência marca uma mudança política e psicológica significativa para um país há muito associado ao desarmamento e à neutralidade.
A Suécia aderiu à NATO em março de 2024, pondo fim a décadas de não-alinhamento militar. Esse passo levantou de imediato uma questão espinhosa na política interna: até onde deve Estocolmo ir na adesão à postura nuclear da aliança, historicamente sustentada pelos Estados Unidos, pelo Reino Unido e pela França?
Estocolmo já não está fora do debate nuclear na Europa; está sentada à mesa, mesmo que por agora apenas como ouvinte.
Kristersson disse ao serviço público de radiodifusão sueco que, enquanto membro da NATO, o país passa agora a participar em “todas as discussões”, incluindo as relativas a armas nucleares. Sublinhou a lógica da dissuasão, e não do uso, defendendo que, enquanto estados autoritários detiverem arsenais nucleares, os países democráticos devem manter acesso a proteção nuclear.
Porque é que a Suécia está agora a falar com a França e o Reino Unido
O momento destas conversas não é acidental. Em toda a Europa, os planeadores de defesa estão a reavaliar a dependência de longo prazo do “guarda-chuva” nuclear dos EUA, sobretudo perante a incerteza quanto a futuras administrações americanas e a mudanças nas prioridades de defesa dos Estados Unidos.
A mais recente Estratégia Nacional de Defesa de Washington transmitiu uma mensagem mista para a Europa: os EUA continuarão a reforçar o seu arsenal nuclear, mas esperam que os aliados europeus assumam mais responsabilidade pela sua própria defesa convencional e regional. Isto intensificou um debate mais amplo dentro da NATO sobre a “autonomia estratégica” europeia no quadro da aliança.
A França, o único Estado-membro da UE com armas nucleares, tem vindo discretamente a impulsionar este debate. O Presidente Emmanuel Macron colocou em cima da mesa a ideia de que as forças nucleares francesas poderiam ter uma dimensão europeia mais ampla, embora permaneçam sob controlo estritamente nacional. O Reino Unido, com as suas forças nucleares Trident, mantém-se totalmente integrado na estrutura de planeamento nuclear da NATO.
A conversa sobre coordenação franco-britânica, combinada com a adesão da Suécia à NATO, criou um momento em que a cooperação nuclear já não soa impensável no norte da Europa.
Dentro das conversas iniciais
Kristersson revelou que a Suécia está em “discussões em curso” tanto com a França como com o Reino Unido. Estas são descritas como exploratórias, e não operacionais. A dissuasão francesa, observou, continua a ser “exclusivamente francesa”, mas Paris demonstrou uma nova abertura para falar com países parceiros sobre o seu papel.
Crucialmente, o líder sueco sublinhou que Estocolmo não vê atualmente necessidade de acolher armas nucleares no seu território em tempo de paz. Essa posição reflete a de vários membros da NATO que participam no planeamento nuclear da aliança sem alojarem ogivas nucleares em casa.
- As conversas centram-se no diálogo político e estratégico, não no destacamento.
- Não está em cima da mesa um programa sueco de armas nucleares.
- A cooperação provavelmente enquadrar-se-ia em molduras da NATO ou em entendimentos políticos paralelos.
Um debate interno sensível vem a público
As declarações do primeiro-ministro surgiram pouco depois de um editorial de destaque no Dagens Nyheter ter defendido que a Suécia deve finalmente enfrentar a questão da dissuasão nuclear. O artigo, intitulado “Ninguém quer discutir armas nucleares suecas, mas temos de o fazer”, refletiu um sentimento crescente entre alguns decisores de que a Europa não deve depender quase inteiramente de Washington para proteção nuclear.
O editorial destacou vários ativos suecos que poderiam ser relevantes caso evoluísse uma arquitetura nuclear europeia mais ampla:
| Ativo sueco | Relevância potencial |
|---|---|
| Base avançada de tecnologia nuclear | Experiência de investigação da era da Guerra Fria e de reatores civis poderia apoiar infraestruturas partilhadas ou monitorização |
| Forte indústria de defesa | Capacidade para integrar a dissuasão nuclear no planeamento convencional, em sistemas de comando e em plataformas aéreas e navais de alto desempenho |
| Localização geoestratégica | Posição-chave no norte da Europa, próxima da Rússia, do Ártico e do mar Báltico |
Estas ideias estão longe de constituírem política oficial, mas mostram como a discussão pública se está a alargar para além da simples pergunta de “sim” ou “não” à partilha nuclear da NATO.
Pressão da NATO: aderir a uma aliança nuclear implica falar de armas nucleares
No seio da NATO, a hesitação sueca em torno de temas nucleares não passou despercebida. Em junho de 2024, o Diretor de Política Nuclear da NATO, Jim Stokes, visitou Estocolmo e instou os políticos a explicarem aos cidadãos comuns as implicações da pertença à aliança.
Os responsáveis da NATO querem que a Suécia explique claramente que aderir à aliança também significa aceitar a dissuasão nuclear como parte central da sua segurança.
Durante décadas, a Suécia apoiou-se informalmente no “guarda-chuva” nuclear dos EUA, enquanto afirmava uma forte identidade de desarmamento. Esse equilíbrio mudou: como aliada formal, espera-se que a Suécia participe no trabalho político que sustenta a postura nuclear, mesmo que não aloje armas ou aeronaves certificadas para as transportar.
França, Reino Unido e a Declaração de Northwood
Qualquer movimento sueco no sentido de uma cooperação nuclear mais estreita encaixaria numa história europeia mais ampla. Desde julho do ano passado, França e Reino Unido estão vinculados pela chamada Declaração de Northwood, um acordo para coordenar as suas estratégias nucleares. O documento fica aquém do controlo conjunto, mas cria um canal estruturado de consulta ao mais alto nível entre as duas potências nucleares europeias.
A França continua fora do Grupo de Planeamento Nuclear da NATO, o órgão da aliança que orienta a política nuclear, apoiando-se nas suas próprias estruturas nacionais. Essa posição singular dá a Paris tanto influência como flexibilidade ao falar em estender a “dimensão europeia” da sua dissuasão, preservando simultaneamente o controlo total sobre decisões de lançamento.
Para a Suécia, envolver-se com Londres e Paris oferece uma forma de se ligar a duas filosofias ligeiramente diferentes de postura nuclear: o modelo britânico profundamente integrado na NATO e a abordagem francesa mais autónoma, mas cada vez mais orientada para a Europa.
O passado nuclear da Suécia: de programa secreto a defensora da não proliferação
Os debates atuais decorrem à sombra de um capítulo quase esquecido da história sueca. No início da Guerra Fria, a Suécia conduziu um programa clandestino de armas nucleares, explorando tanto o desenho de armamento como sistemas de entrega. Esse esforço terminou no início da década de 1970, quando Estocolmo optou por uma forte defesa convencional apoiada em acordos internacionais de controlo de armamentos.
A Suécia assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) em 1968, renunciando formalmente à opção de armas nucleares. Nas décadas seguintes, construiu uma reputação como defensora do desarmamento e da verificação, enquanto assumia discretamente que as garantias nucleares dos EUA continuariam a dissuadir qualquer ataque ao norte da Europa.
As discussões de hoje não são sobre a Suécia construir a sua própria bomba, mas sobre como uma antiga campeã do desarmamento se encaixa numa aliança armada nuclearmente perante a renovada rivalidade entre grandes potências.
O que a “cooperação nuclear” poderá significar de forma realista
A expressão “cooperação nuclear” pode abranger uma vasta gama de atividades. No contexto sueco-franco-britânico, sobressaem vários cenários:
- Diálogo estratégico ao mais alto nível sobre dissuasão, incluindo consultas trilaterais regulares.
- Exercícios conjuntos e jogos de guerra que simulem gestão de crises nucleares, controlo de escalada e coordenação com forças convencionais.
- Colaboração técnica em alerta precoce, integração de defesa antimíssil ou proteção de infraestruturas críticas.
- Participação nas discussões de planeamento nuclear da NATO, sem que a Suécia aloje quaisquer ogivas.
Qualquer passo que tocasse no estacionar de ogivas ou no controlo operacional direto ultrapassaria um limiar político muito mais elevado internamente e levantaria questões à luz do TNP e da identidade de política externa de longa data da Suécia.
Termos-chave e riscos que moldam o debate
Vários conceitos ajudam a enquadrar os argumentos atualmente em curso em Estocolmo e por toda a Europa:
Guarda-chuva nuclear: refere-se à proteção proporcionada por um Estado com armas nucleares a aliados, dissuadindo ataques ao prometer retaliação. A Suécia apoiou-se informalmente no guarda-chuva dos EUA durante décadas, mesmo antes de aderir à NATO.
Dissuasão alargada: significa que uma potência nuclear está disposta a usar o seu arsenal não apenas para defender o seu próprio território, mas também o de aliados. Qualquer garantia nuclear francesa ou britânica à Suécia enquadrar-se-ia nesta categoria.
Os defensores de uma cooperação mais estreita argumentam que um papel nuclear europeu mais claro reduz a vulnerabilidade a mudanças súbitas na política interna dos EUA. Os críticos alertam que normalizar o discurso da dissuasão nuclear na Suécia arrisca enfraquecer normas de não proliferação e pode fazer a região parecer mais militarizada aos olhos da Rússia.
Existem também cenários práticos discutidos em círculos de segurança. Um envolve uma crise no Báltico ou no Ártico em que forças russas ameaçam território da NATO, mas ficam aquém de uma guerra aberta. Nesse caso, sinalização coordenada por França e Reino Unido, com a Suécia dentro do circuito de consultas, poderia procurar dissuadir a escalada sem ultrapassar o limiar do uso de armas nucleares.
Outro cenário imagina pressão prolongada sobre cabos submarinos, satélites ou infraestruturas críticas. Aqui, o planeamento partilhado sobre como a dissuasão nuclear interage com ataques cibernéticos e espaciais torna-se crucial, e um país como a Suécia, com tecnologia avançada e uma localização estratégica, tem algo de tangível para contribuir.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário